PROFESSOR PODE VOTAR EM BOLSONARO?

A tríade propriedade, liberdade e vida, entendida pelos liberais como direitos naturais, não históricos e não decorrentes da luta de classes, é a grande fiadora de decisões morais típicas da classe burguesa, em que as conveniências econômicas e o domínio social sobre as outras classes se transformam em discursos e ideologias que, sob a análise histórica e conceitual, nada dizem de conhecimento mas antes informam o desejo de um grupo continuar mandando na estrutura social. Desta forma e sob esta perspectiva, perguntar sobre se professor pode votar em Bolsonaro é coisa absurda, por que estaria supondo a negação da liberdade de qualquer cidadão de votar em quem quiser. É justamente o uso conveniente dessa ideia de liberdade que se produz um contexto ideológico em que os sujeitos são estimulados a tomarem decisões políticas sem confrontarem a coerência delas com a própria ética. Também acontece o contrário, dessa forma enviesada de ler a realidade e clamar por uma ética de aparência para forçar uma decisão política que lhe agrade mas que, eticamente, é incoerente. Estes dois tipos de procedimento se mostram visíveis nas eleições deste ano e nos propomos aqui fazer uma breve reflexão dos mesmos partindo da ética do voto em Bolsonaro a partir da realidade de quem é professor.

De início, podemos dizer que, dentro do que suporta e é até saudável para a democracia, votar em Bolsonaro é algo natural, dentro das regras do jogo. Afinal, é um candidato legitimado, submetido aos poderes constitucionais. Bem, esse tipo de dizer, de falar, não chega a ser incorreto e nunca será desqualificado por que, queiramos ou não, é um dizer verdadeiro. No entanto, esse tipo de narrativa, de nivelamento, é bem ao gosto de quem gosta de ler a realidade em seu ideal e não descer para o mundo real, esquecendo-se de que toda as mudanças, transformações e revoluções ao longo da História foram justamente o abandonar do discurso límpido, perfeito e generalizante para a prática efetiva do seu significado. Os servos do norte da Inglaterra feudal tinham até de cederem a mulher na noite de núpcias e tudo isso era dentro do plano perfeito e agradável de Deus. Nenhuma sociedade, por mais opressora que tenha sido, postulou algo ruim, às claras, para a maioria da sua população; os malefícios sociais eram o efeito das práticas políticas e econômicas que beneficiavam os grupos majoritários, práticas essas pensadas e ditas como sendo necessárias para o bem da sociedade. Assim, voltando à natureza do discurso do voto livre, de que estamos em uma democracia e todos devem respeitar a vontade das pessoas se mostra, mais uma vez, uma pincelada de liberalismo misturada com a liberdade de ser qualquer coisa, inclusive de ter posições que neguem ameaçam a existência dessa própria sociedade. É o típico discurso que pede liberdade de expressão e se diz defensor da democracia para poder falar em partido nazista, defender supremacia branca, inferioridade dos negros, o racismo e o fim do STF e, quando silenciado por força da lei, responde dizendo que estamos vivendo numa ditadura.

É histórico e tradicional que a burguesia sempre prime por discursos, ideologias e narrativas separadas da vida material, imediata das pessoas, evitando que os trabalhadores, em sua grande maioria, desenvolvam consciência de classe e aprendam a fazer uma leitura crítica da sociedade e a se tornarem sujeitos politizados, cônscios de que nada na tessitura social é ingênuo, aleatório e desconectado de um projeto de normalização e enquadramento da vida no qual ele, trabalhador, ocupa, necessariamente, um papel subalterno. O que se percebe hoje no país é exatamente a materialização de um projeto assim e, o que mais assusta ou nos leva ao lamento e tristeza é observar que boa parte da força desse projeto é insuflado pelas próprias vítimas, separadas em sua consciência do que significa Bolsonaro para a realidade prática de suas vidas. Aqui, separo, especialmente, a categoria da qual faço parte, a dos professores e, da perspectiva docente, da ética inerente ao ato de educar e do sentido do educar é que analiso a ética do voto em Bolsonaro sendo professor.

Se, dentre tantos candidatos, nós situamos Bolsonaro e não outro, cabe uma justificativa, que é também a razão desse texto: Bolsonaro é lido por este autor e apontado por ele como alguém que se contrapõe aos valores compartilhados pela sociedade democrática, no mínimo, representando, no mais, dentro da sociedade, os seus piores defeitos, elevados a coisa respeitável na medida em que a autoridade máxima do país os expõe, os encarna e os elogia. Dizer, apenas por que alguém quer dizer, não torna o dito verdade; então, onde repousa a verdade defensável para validar o discurso de que Bolsonaro é a negação dos melhores valores dos quais nos esforçamos cotidianamente e a celebração daquilo que em nós nos adoece, nos atrasa e nos diminui enquanto seres humanos. Em que e por que Bolsonaro não é como os outros? Onde está o problema de votar nele?

Bolsonaro é um admirador da Ditadura Militar de 1964, período triste da nossa história que matou centenas de pessoas, perseguiu milhares e fez descer sobre o país nuvens obscuras, com o custo da democracia e o arrocho econômico sobre a população. Bolsonaro é inegavelmente um sujeito autoritário, que mal disfarça seu gosto pelo militarismo e pelo desejo de mandar sem limites quando confronta sem razão outros poderes constituídos. É um homem que admira um torturador, o Carlos Alberto Brilhante Ustra, justamente por sua atividade de torturar, deixando claro que um mundo em que pudesse torturar os divergentes é um mundo melhor para ele que o mundo onde somos forçados a respeitar a democracia. Como ganhou a presidência sem esperar Bolsonaro tenta esconder o acidente que ele é confrontando o judiciário, as urnas eletrônicas e disparando sandices. Como homem demonstra ser mal resolvido em sua sexualidade e como cidadão deixa claro sua limitação intelectual ao se posicionar sobre todo tipo de pauta que a sociedade muito custou a discutir e fazer avançar os direitos de minorias e uma justiça equânime. Bolsonaro representa o Brasil hétero, preguiçoso, da época colonial, Brasil esse no qual homem podia tudo praticamente com o corpo da mulher e fustigar outros homens se não se mostrassem machos, um Brasil imóvel, no qual não existem índios por que eles não andam mais nus e tem celulares, um Brasil onde não precisa respeitar o meio ambiente por que tem floresta demais, um Brasil ignorante, profundamente ignorante, que desconhece coisas mínimas para entender o funcionamento do mundo.

Bolsonaro, como coisa realizada, demonstrou o mal que é. Negacionista da ciência, negou vacina a milhões no tempo certo. Estúpido – sim, estúpido, como adjetivo de uma verdade e não um xingamento –, persegue a população LGBTQIA+ por entender que ela é um risco para a família e parte de um projeto satânico capitaneado pelo PT; ainda, o mesmo adjetivo explica ele negar que exista racismo no Brasil e colocar na fundação Palmares um negro que é contra políticas de reparação.

O fascismo de Hitler e Mussolini era justamente a afirmação de verdades acreditadas pelo desejo de acreditar, pela vontade de afirmação de um grupo cansado de se ver como fraco que, por sua vez, fez sua fraqueza ser a única virtude de uma nação. As limitações e imaginações de Hitler e Mussolini se tornaram, em sua época, a verdade para a Alemanha e para a Itália. Bolsonaro, que tem a mesma vontade, de fazer com que o país tivesse apenas a sua verdade, a única forma na qual ele não seria desprezado pelo mundo, namora com o fascismo, por que o fascismo é a única saída para os ressentidos, para os covardes que não admitem a felicidade alheia e sofrem até com o que os outros fazem com o ânus.

Muitos, identificados com o mundo que Bolsonaro representa mas envergonhados da posição, compram o discurso da grande mídia de que ele e Lula são farinha do mesmo saco, como se diz no popular, como se ambos fossem versões diferentes do mesmo mal. Nada mais falso, enganoso e capcioso que isso. Esse discurso é plantado, e o foi pela grande mídia que, mesmo crítica ao bolsonarismo, está longe de concordar com os pressupostos de uma política afirmativa dos direitos humanos, das minorias, da justiça racial e do combate à pobreza e à injustiça social, projetos, bem feitos ou não, sempre pautados pela esquerda e com Lula, em governos anteriores, executados com significativo êxito.

Bolsonaro não é um democrata, enquanto Lula é. Bolsonaro é golpista enquanto Lula e o PT, mesmo no golpe claro contra Dilma, respeitou as regras do jogo, sem pender para atos ou atitudes de ruptura institucional. A trajetória de Lula é de defesa da luta dos trabalhadores, de organização sindical contra os desmandos dos patrões, de análise e crítica da política do Brasil, de viajar e conhecer o Brasil profundo.  Bolsonaro tem um outro itinerário, de rebeldia nos quartéis, de insubordinação às autoridades, sendo execrado pelo exército, de participação política apagada, maquinal, viciada, representando o Rio de Janeiro e vivendo da política profissional por anos a fio. Bolsonaro não é símbolo nem projeto de nada muito articulado mas restou como articulação de tudo aquilo que no país não deu certo, se insurge contra a ordem das coisas, é símbolo de um Brasil que subverte o sentido das coisas, que leva o bom senso ao cemitério, que se orgulha da ignorância, que avacalha a vida e o faz sem preocupação, por que não se tem mais que provar nada ou ter que prestar contas do que se disse. Bolsonaro representa esse Brasil tosco mas que, na presidência, é sempre controlado pelo mesmo Brasil elitista, só que menos radical da Direita. Seu projeto é o projeto que nega a alma do Brasil, por que exclui a diversidade étnica do povo brasileiro, desconhece os indígenas, reforça a dor dos negros e perpetua as desigualdades.

Não estamos, com este artigo, fazendo um pedido de voto em Lula mas trata-se, antes de qualquer coisa, de se posicionar contra alguém por imperativo ético, e este alguém é Bolsonaro, ficando o eleitor livre para escolher quem ele queira escolher e que saiba o que significa escolher Bolsonaro. Quanto à escolha deste candidato por parte dos professores, como analisar e entender tal escolha?

Se buscamos racionalidade ou interesse pela verdade como os critérios orientadores das escolhas políticas das pessoas rapidamente descobriremos que a imensa maioria não se submete a estes critérios na hora de fazer uma série de escolhas morais, deixando ver que o que as orienta parte da fé, paixão ou outro tipo de motivação. O que explica alguém que é letrado, em tese um intelectual (sim, por que professor é um intelectual do saber, quer queira quer não), esclarecido, que sabe que a educação é uma aposta ética no poder do conhecimento para aprimorar as gerações no interesse do que é o melhor para a sociedade votar em alguém que não tem compromisso com esse projeto, que se posiciona contra as possibilidades esclarecedoras da educação e que sacrifica a verdade e o conhecimento no altar da ignorância?

O advento do Holocausto e do nazismo e o porquê de sua aceitação foi tema dos estudos da Escola de Frankfurt e o que muito se concluiu foi que paixões ocultas não realizadas do homem médio moviam suas decisões políticas, para além da racionalidade, demonstrando, mais uma vez desde Rousseau e melhor dito pela boca de Pascal, que o coração tem razões que a razão desconhece. O que teria, então, de razão ou paixão, para um professor votar em Bolsonaro, uma vez que a atividade do primeiro choca-se contra o projeto do segundo?

Primeiro, não é contraproducente admitir que o voto em Bolsonaro exige de um professor um esforço para afastar a tese implícita de sua falta de compreensão do processo histórico e da realidade brasileira, como também da luta do trabalho pelo capital. Não é isso um julgamento ou afirmação de que professor que vota em Bolsonaro é desprovido de inteligência ou conhecimento mas é preciso que todo votante, sendo professor, nos faça ver o que não vemos, nos faça compreender que o projeto de Bolsonaro representa mais um avanço em direção aos valores da democracia do que qualquer outro ou que não representa retrocesso inclusive para quem é professor.

Segundo, se não se encontram razões para uma coerência ética no voto a Bolsonaro sendo professor é forçoso admitir que há motivações fora do campo ético e que respondem a apelos mais profundos por parte de cada um. É preciso interpretar que o voto em Bolsonaro, aqui, é a descarga psíquica, o desprendimento de juízo, a fé em alguma coisa representada por ele que justifica o voto e que isto geralmente não está dado no plano da análise crítica, racional.

Pessoas esclarecidas votarem em Bolsonaro deixam ver as limitações do poder do conhecimento e que ele não liberta, necessariamente, como apostavam os filósofos iluministas. Parece que há em nós forças obscuras incapazes de serem afastadas pelo poder da razão, exigindo outro tipo de intervenção. No plano da possibilidade real a psicanálise pode ser de grande ajuda, ao projetar o voto em Bolsonaro nas faltas que cada um tem do pai ou projeta aquilo que recalca e que de alguma forma o bolsonarismo é a chancela para esse tipo de manifestação. Se assim é não encontraremos, por mais que procuremos, as explicações racionais para o voto em Bolsonaro por pessoas que tem uma história de vida e milita por ideias que são contrárias ao mundo representado pelo mandatário. O que, então, faz com que essas pessoas não sintam contradição? Ora, é justamente aí que repousa a importância da consciência ética como imperativo a orientar a ação moral na política, coisa que a burguesia detesta por que é justamente o tipo de ferramenta que impediria a propagação das narrativas fantasiosas e contraditórias dela mesma sobre o mundo. O sujeito trabalhador, nessa situação, lança mão de costuras da realidade típicas da grande mídia e fornecidas pelos intelectuais orgânicos, amarrando lógicas e coerências de forma forçada e flagrantemente estapafúrdias para desqualificar e colocar em dúvida os instrumentos de análise do mundo real, chegando numa situação de acreditação em que ele mesmo não poderá ser convencido do contrário por que já não acredita nos meios para isso mas conserva a credulidade para outras coisas provadamente não verdadeiras. O que é isso senão paixão, senão fé, senão fanatismo, senão o destravar de preconceitos dormentes, senão o incômodo com o mundo “liberal” demais que muitos acham ser culpa da esquerda?

Por último, para defesa da nossa tese do que representa votar em Bolsonaro, advogamos que a liberdade para tal não pode se basear em outra coisa senão na identificação que se tem com ele ou com as ideias que o mesmo representa. No mundo da liberdade liberal em que a coerência ética é dispensada porque levaria as pessoas a perceberem as contradições sociais e se organizar para combatê-las não é surpresa que pessoas vitimadas por políticas bolsonaristas se vejam votando no seu representante sem perceberem nenhum problema ético.

O professor, como intelectual do saber e pelo lugar que ocupa, é livre para fazer valer seu direito de escolha mas anula toda a sua credulidade na medida que, no exercício desse direito, concede voz e autoridade a uma pessoa cujo projeto de poder é a negação do que afirma o ato de educar e o que significa ser professor.

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