ROMANTISMO – A MORTE DO AMOR!

A imagem de uma vida grandiosa, bela, apaixonante, aventurosa, colorida e sobretudo doce é a que está impregnada na concepção que fazemos do amor, ainda que não guarde em si toda a concepção do amor. O que não se nega, contudo, é que a construção do amor romântico se tornou tão sedutora que mesmo os avisados se melindram por ela, como se rogassem secretamente que o amor que vivem se parecesse com o amor romântico. Há algo no amor romântico que nos apaixona a alma, que nos faz desejá-lo como encaixe perfeito e suficiente com o outro; talvez o apaixonar-se pelo outro e pela imagem ideal que ele pinta de mim sem eu saber – eu amo em ti sempre algo mais que tu – nos cative de uma forma tão egoica que perder a imagem seja também perder o conforto que ela nos dá. O magnífico escritor de Ana Karenina dizia que era difícil amar uma mulher e fazer alguma coisa com juízo. O genial corcunda Pascal produziu uma bela frase ao dizer que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Autores de quilates inquestionáveis no panteão da literatura universal Tolstói e Pascal expressam o sentimento do amor na era moderna pela via que mais nos impregna: a da desrazão, da loucura justificada, da paixão desmedida para tudo fazer pelo outro, da sensação indescritível de só ver sentido na existência ao lado de uma determinada e específica pessoa. O amor do nosso tempo é fruto da concepção romântica; este, por sua vez, é histórico, datado, do século XV em diante. Amor é uma construção histórica e se é verdade que os homens sempre amaram não o fizeram da mesma forma, evidenciando que a forma de fazê-lo é singular. Com tantas emoções aparentemente belas, boas e agradáveis, o que pode haver de ruim no amor romântico?

De início, tudo, ainda que o gosto amargo seja sempre o último a ser sentido. O problema do amor romântico é que ele constrói uma gaiola ideal para o outro morar que quase nunca serve para este outro, amado e desejado. O romantismo do amor para com o outro se constrói sobre projeções nele de nossas próprias carências e faltas, por isso o outro é tão perfeito, porque vemos nele exatamente tudo o que julgamos que deveria ter em nós ou nos julgamos que deveríamos ser. O sorriso perfeito, encantado, o jeito de ser inigualável, a energia muda mas evanescente no ar, o olhar faminto, o balando do andar, enfim, a construção deste outro feita de modo tão perfeito é uma confissão do que se deseja em si mesmo por sua própria falta e que o outro que possui o que desejamos nos mostra isso como um espelho, o que não quer dizer, a rigor, que o outro não seja o que supomos dele.

Aristóteles, que formava com Sócrates e Platão o conhecido tripé da filosofia grega, sem medo de enfrentar o mestre Platão, disse uma vez que era mais amigo da verdade do que de Platão. Há, no amor, ou deve haver, aquilo que fazia Aristóteles advogar como valor maior, a verdade? Se o amor e a verdade, como parecem, são valores admirados no Ocidente, é preciso, para além da beleza do romantismo, procurar a verdade do amor na sua forma verdadeira, no seu devir. Começando pelo próprio romantismo: há verdade no amor que espera e busca o outro de forma romântica? O outro é esta projeção romântica que fazemos dele, de panaceia de todas as nossas carências e o sentido de nossa existência? O que a experiência e a história das relações nos tem mostrado é exatamente o contrário; nada tão belo quanto o amor romântico mas nada tão fugaz também. Seria desejável, ainda assim, amar como os românticos? Sim, se fosse possível. Se nos interessa a verdade no amar o outro a verdade deve buscar a verdade de quem é este outro que amamos e, se for uma verdade honesta, como se espera que seja, deverá perceber que este outro é…um OUTRO. O que é este um outro? Não é um duplo, não é um parecido, não é um semelhante, não é um conhecido, mas um outro, com a devida noção do que esta alteridade significa, o direito radical da experiência de ser a própria singularidade, sem identificação (por que ela anula o outro como outro). Cabe, agora, perguntar se o romantismo, do que supõe dos amantes, enuncia alguma verdade destes. O que encontramos? Por mais bela que seja a imaginação o outro romantizado não passa de uma construção demandada pelo desejo de idealização de quem amamos, o que reflete os furos na nossa própria imagem. O outro e nem nós podemos viver um para o outro como se pudéssemos fazer disso a razão de nossa existência. A existência é material, prática, problemática e sinuosa. O outro não resolve meus problemas práticos, o que me pede energia fora do foco do outro para a vida prática. Por aqui o mito vai se esvaindo. Para amar o outro, antes, é preciso dinheiro, casa, trabalho, produzir a existência laboral sobre a qual o amor será construído. Essa realidade não é agradável, pois parece desbotar o romantismo do amor. É verdade mas, se o que queremos é encontrar um amor que não feneça ao sabor do vento, não é lícito saber discernir o que nos avizinha como inimigos do amor que tanto buscamos? O amor romântico, não raro, supõe uma certa morbidez para tolerá-lo, sobretudo por que não se exclui, da relação heterossexual, o componente de gênero que confere um maior poder ao homem que à mulher e entrega, em sua historicidade, ser uma concepção de amor que acasala melhor o homem que a mulher. Amar romanticamente é também reproduzir uma relação de classe e de gênero que se esconde de forma sutil.

            O amor romântico se faz sobre uma certa idealização do outro e na sua projeção nunca perguntou se o outro é a projeção que se faz dele ou se ele tem a obrigação de corresponder. Amar o outro de forma romântica não realiza a exclusividade de não sentir desejo por mais ninguém, como suposto. A noção de que o outro me completa, não raras vezes, costuma servir ao imperativo de forçar o outro a se enquadrar na minha idealização dele, como se ele tivesse obrigação. Em suma, se queremos amar o outro, o que mostra a experiência é que o primeiro e sábio passo é solapar de nós mesmos a idealização do outro e partir de uma imagem real dele, com a decisão de, longe do amor ser cego, perceber o outro como ele é e, a partir de uma decisão, amá-lo. O amor, longe da sedução do romantismo, é racional, como é racional o seu fim. Há sentido na racionalidade do amor. Se o meu amor é uma decisão livre das projeções e idealizações, quando estas acabarem, como sempre findam, eu não vou, por vinculação, findar o amor, por que sua base não é a estética ou o sentimento meu que espera algo do outro mas minha decisão autônoma de amar a este outro como ele é, sem ignorar a natureza de seu caráter.

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