PROCRASTINAÇÃO COMO SINTOMA!

Quando os burgueses convenceram e inculcaram na percepção dos servos de que lhes faltava liberdade fazendo os mesmos perceberem a falta desta pelo fato de não poderem saírem do feudo e que isto era um problema, quando não era, obrigatoriamente, não revelaram que estavam tentando comprar o bem mais precioso deles, o tempo. Sob a lógica de mercado todos passaram a se ajoelhar ao novo deus, o tempo, e um tempo produtivo. Não à toa temos uma cultura que endeusa os jovens e maltrata os velhos; os primeiros tem sangue vital necessário à máquina capitalista e os últimos já foram chupados e cuspidos, são lentos para produzir e não potencializam os lucros. Temos todo o tempo do mundo, costuma-se dizer, em mais uma fantasia contemporânea. Esconde-se que não há um tempo fora da produtividade. Gostemos ou não, ricos ou pobres, não há um FORA da existência sob o ritmo de uma vida subjugada ao tempo da produção e do gozo dessa produção. E os ricos, que podem viver em tédio prazeroso? Aí também, e sobretudo, percebe-se a vida entregue ao tempo expropriado dos que trabalham; embora não cronometrem o tempo vivem sob a mais valia de um tempo tirado dos outros pela exploração do trabalho. O tempo é o capital mais valioso que temos por que tudo é e será gozado e feito nele. Desta forma, não há, sob a égide do mercado, uma lógica fora da imposição do tempo mercadológico. Vida autêntica e singular, dona de si, é exceção; viver viajando, esbanjando dinheiro e transando adoidado é mais adequação ao tempo do mercado, mesmo que não se trabalhe, do que autenticidade e evidência de felicidade. Em nossos íntimos suspiros e maquinações está o germe da ação sob a imposição de uma vida produtiva. O mercado é dono do que desejamos. O mercado é o tesão que sentimos pelas coisas, pelas mulheres e homens. O mercado mora na coisa inocente chamada expectativa. A expectativa é a subjetividade alheia capturada pelo imaginário da produção, do ter que ser, do ter que gozar, do ter que corresponder à escrita traçada pelo outro. O anseio de tempo livre coloca em marcha nossos esforços de trabalho dedicado a ganhar dinheiro para comprar tempo, numa legitimação voluntária mas não consciente da lógica de produção de nós mesmos pela agenda capitalista.

Na sociedade que vivemos estamos rodeados de imposições vindas sobretudo do trabalho. A empresarização da vida, que nos esvazia do humano para nos encher de uma subjetividade maquinal, nos transformando em profissionais de alta performance e alto desempenho, nos faz interiorizar a chantagem e abuso emocional do outro de forma institucionalizada, na medida em que a arbitrária régua do outro é aceita por nós por receio de não sermos aceitos no mercado de legitimação da vida. A resultante disso é a interiorização da certeza de que eu tenho que fazer isso e aquilo e, se não conseguir, vou terminar me consumindo com a culpa e com o sofrimento psíquico de me tornar, eu mesmo enquanto sujeito, um sujeito menor, reprovado perante os meus olhos que introjetam contra mim a censura produtiva do outro. A doença prenunciada por essa angústia pode facilmente ser uma depressão, uma forma do sujeito esconder a falha para o outro pedindo dele a compaixão. Na compaixão pelo outro e no padecimento ninguém é metrificado pela régua da produtividade.

A reação de muitos que se atrasam na produtividade cotidiana da vida sem adoecer se desviam da culpa por não serem exatos na matemática da produtividade pedida pelo outro de forma cínica, em um extremo e, em outro, de forma sadia, não se deixando nomear pelo discurso do outro. O discurso do outro, nas instituições, é sempre aquele que pune quem não cumpre prazos e procrastina, recebendo a pecha de irresponsável. Ser responsável, em matéria de produtividade para o outro, é adequar-se mansamente e dócil a uma ordem que não me beneficia e me explora, para evitar maus julgamentos e ainda cortejar elogios alheios à minha performance, se é que a vida é performance; esta preocupação é muito válida no mercado dos egos no trabalho por que costuma valer a ascendência dos sujeitos na ordem da riqueza, uma vez que a produtividade é compensada financeiramente, ou se pensa que seja. Nossos chefes, tão rápidos e prontos em nos censurar por que não agimos como o rebanho, nos cobram o que supõem ser a nossa verdade: somos ou não bons profissionais? Prestamos ou não? Eles, mais do que ninguém, já introjetaram o cabresto da produtividade, condição para serem chefes, e sobre isso constroem o poder de validar a percepção e o valor das pessoas no ambiente em que chefiam, mediante a construção de um discurso de suas práticas. Tal descrição, comum onde quer que cheguemos e tenha trabalho a ser feito, não procura validar moralmente ou não quem cumpre ou deixa de cumprir o que se pede. O fato em questão, para quem cobra e quem é cobrado, é que ambos ignoram que fazem parte de uma imposição maior e que respondem de maneiras diferentes às demandas.

Na vida cotidiana, sem chefes, em nossos lares, em nossas relações e sobretudo conosco mesmo, procrastinamos à vontade e de forma costumeira e, talvez, com uma leve consciência de culpa por não começarmos uma dieta já prometida, uma frequência de atividade física por semana, dentre outras coisas. Aqui, procrastinar não produz efeitos sobre nós vindos do julgamento alheio mas a imposição de ter que fazer e não fazer é a mesma do trabalho.

A própria ideia de procrastinar, a aceitação dela, é uma naturalização de que existem coisas que tem de ser feitas em determinado tempo de nossa vida senão não mais valem, como casar, ter filhos, mudar de emprego, viajar. No aspecto pessoal, procrastinar é aceitar se iludir e se converter ao jugo do tempo do outro, do gozo do outro para o AGORA, para o tempo que não é nosso e que, tratando-se de nossa vida, não deveria ser metrificado pelo gozo do outro. O ter que fazer da minha vida não tem, ou não deveria ter, tempo marcado algum por que, ao final, o tempo não passa devagar ou depressa de acordo com o que fazemos mas se comporta de forma igual para todos. A morte é o destino comum, independente do ritmo de vida. Não procrastinamos por que temos crenças que nos limitam, por isso ou por aquilo outro, como dizem os mercadores de ilusão, os coaching, mas sim por que esta é uma forma de afastar a imposição de algo que, intuímos, não nos realiza, não nos entrega o que queremos e nos engana. Medir a vida e se comportar de acordo com o tempo do mercado é obedecer ao gozo do outro, que se impõem sobre nós e, como o tempo é subjetivo dentro da singularidade de cada um, iremos fatalmente procrastinar, ignorando que estamos nos defendendo das imposições alheias e deixando de ler a procrastinação como sintoma do nosso sofrer por estarmos onde estarmos e agirmos como agirmos. Não ir contra a lei no trabalho e não adoecer com as burocracias é um caminho institucional. No âmbito privado se despir da culpa do não ter feito e das expectativas do outro sobre o que iremos ser ou fazer evita qualquer possibilidade de adoecimento com procrastinação por que, independente dela acontecer ou não, não estaremos nos pautando pela imposição do gozo alheio mas antes nos permitindo gozar do tempo segundo a nossa própria demanda. Não são caminhos fáceis mas no mínimo, se acontece conosco de procrastinar muitas vezes, a solução não seria procurar cursos para evitar a procrastinação mas entendê-la como sintoma de uma lógica de vida que nos adoece, sendo a procrastinação o sintoma em si. Procrastinar é um sintoma claro: o sujeito não dá conta de ser aquilo que o script social postulou para ele e empenha energia e seu próprio futuro ao se negar no presente a viver porque sua agenda está orientada a cumprir as tarefas atrasadas. Longe da trivialidade de fazer ou deixar de fazer alguma tarefa do cotidiano a procrastinação é um sintoma de algo mais profundo que deveria nos levar a um diálogo franco e corajoso dos motivos não conscientes do porquê que procrastinamos.

2 comentários em “PROCRASTINAÇÃO COMO SINTOMA!

  1. Gostei do que li, apesar de perceber que estou perdendo e que perdi parte da vida tentando corresponder aos anseios da sociedade.

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