QUANDO PROFESSORES PEDEM PALESTRAS PARA ASSUNTOS COTIDIANOS QUE DEVERIAM CONHECER!

A ideia de universidade, cunhada pelos medievos, embora com protótipos anteriores como a escola de escribas Eduba, na Suméria, a mais de 3.500 a.C. e a invejável Academia de Platão foi concebida como um lugar onde o conhecimento do todo deveria ser apreendido e transmitido para a posteridade. Os doutores do medievo se arriscavam sobre muitas coisas e assim vai até a tradição moderna. Só para termos uma ideia, o cérebro mais genial da filosofia moderna, Kant, antes de assombrar o mundo com sua Crítica da Razão Pura, que quase enlouquece o editor, escrevia muitíssimo bem sobre geografia sem nunca ter saído de Königsberg, sua cidade natal, e também discorreu sobre pirotecnia e fogos de artifício. O que Kant fazia não era amadorismo mas procurava encarnar o conceito grego e medieval de sábio, aquele que tem conhecimento e sabedoria. O conhecimento seria o ordinário sobre o mundo, necessitando da inteligência e a sabedoria envolvia a ética e a moral sobre o mundo, conhecendo a natureza do mundo e das pessoas. Nesse sentido até a Bíblia debuta em favor da última, ao dizer que a sabedoria é mais válida do que o muito saber e, diz Salomão, de muitos livros se enfada o mundo. Paulo, em toada diferente mas semelhante, diz que o temor ao Senhor é o princípio da sabedoria, algo radical para pensar o sentido do pensamento no contemporâneo, onde o buscar a verdade e o refletir esbarram frontalmente com a busca acabada nas próprias palavras do Jesus, ao dizer que ele era a verdade. Aqui podemos estar à beira da espiritualidade e não nos interessa. Interessa-nos atentar, nesses exemplos, a confluência de entendimentos para algo humano: o desejo de buscar o todo do qual faz parte. É para entender este todo que criamos universidades e, hoje, no âmbito da educação, os professores são o que de mais genérico encontramos que nos fazem lembrar os sábios gregos e a ambição intelectual dos doutores da Idade Média.

O advento da Revolução Francesa e com ela a hegemonia do capitalismo tornou a partição do todo do saber um caminho para o aprimoramento do lucro e da expropriação do trabalho, gerando riqueza e trabalho ao mesmo tempo que colocava o ganho dessa operação a serviço dos seus interesses. A escola e o tempo foram empreendidos dentro de uma lógica inexistente na Idade Média, que era a do trabalho. Trabalhar significava gerar riqueza para o dono dos meios que gerava determinada riqueza. Quanto maior a área específica de trabalho maior a possibilidade de surgir uma necessidade e com ela gerar riqueza, da mesma forma que quanto maior fatorar a existência humana maior a possibilidade de construir subjetividades específicas; é dessa forma que nasce a ideia de adolescência. Apesar disso, permanece, em qualquer centro de formação ou ensino, a ideia de que o adulto educador sob a égide do capital deva saber minimamente sobre generalidades e dominá-las. Conhecer o mundo e a sua natureza continuam sendo, para o próprio capital, algo de interesse do mesmo ao formar os responsáveis pela formação das crianças e dos jovens. Nisto, temos um sintoma que nos aparece.

Tem saltado aos olhos, em corredores, conversas reservadas, reuniões do meet e conselhos de classe, como de rotina, a queixa moral dos professores, que faz parecer que os alunos são o sintoma inconsciente da frustração libidinal (toda nossa frustração, profissional, amorosa, financeira, é uma frustração de gozo) do adulto – suposto – professor. Nessas reuniões o que ressalta de assombro para os professores, invariavelmente, é o espelho do problema que é deles e está com eles, que é a questão da sexualidade, secundado pela má vontade (vontade passiva pode ser má?) dos estudantes em estudar. Estudantes, crianças, falando palavrões, desnudando a sexualidade, expressam o mundo em que vivem. Professor que tem assombro, por si só, acerca do que for em matéria do que é o mundo e o humano, vai contra a expectativa de que, corretamente, se espera que ele tenha sentado em bancos de universidade e conhecido, se não na prática, pelo menos teoricamente o mundo. Assombrar-se e tomar susto com qualquer coisa, dando a ela adjetivos como vergonhoso, monstruoso, doentio ou parecido é revelar sua limitação, de forma gratuita, coisa que não se deve esperar. Embora tenha surjam sempre outros temas espinhosos para além da sexualidade, o que se percebe é um apelo, pelos professores, junto sobretudo aos orientadores e sala de recursos das escolas, como também súplicas ao pedagógico, para providenciar uma palestra com alguém especializado para falar aos estudantes. É claro que o profissional específico tem norral e saber próprios que pode ir além do nosso mas o que se observa é que muitos profissionais palestrantes discorrem sobre coisas que, invariavelmente, estão no mesmo nível de quem solicita a palestra. Ainda assim, o problema não é este. Pedir palestra “especializada” sobre sexualidade…o que é exatamente isso, senão a admissão de que não sabemos falar sobre sexualidade? A admissão de que não sabemos, mesmo que verdadeira e que poderia ser premiada pela busca cuidadosa e responsável, não é suficiente para salvar a mesma. Admitir isso é confessar que somos ineptos para lidar algo que comparece todo dia na escola. Sexualidade é a moeda corrente da escola, da empresa, do trabalho. Admitir isso é confessar que somos problemáticos com o tema. Contudo, não se trata de sexualidade e nem ela é o foco. Ao lado dela, a considerada indisciplina dos alunos é também sempre uma pedida de ajuda de palestrantes. Falar sobre meio ambiente, religião, drogas, xingamentos, palavrões, aprendizagem, estudos, sexualidade, piadas, trabalho, coisas corriqueiras, não podem ser objeto de nossos anseios para serem sanados por palestrantes. São temas que todos ou dominamos ou deveríamos dominar, no nível de saber o lugar deles no mundo. Por que deveríamos dominar? Por que são temas que fazem o chão da escola e não é uma palestra que vai resolver. Se admitimos a inépcia admitimos a falta como educador, gostemos ou não. Por outro lado, o hábito de chamar palestrantes pode expressar muito bem nossa preguiça de viver a escola e a vida na escola, coisa contraproducente vindo de professores. Não nos é pedido que saibamos o todo mas o lugar do professor no contemporâneo não admite profissionais que se escandalizam com o corriqueiro da vida e que supõem haver um problema justificado para interpelar com ajuda profissional especializada. Além de estarmos depondo contra a nossa própria qualidade docente e pessoal – professor, intelectual do saber, se escandalizar é bem sintomático – estamos realçando a acriticidade em relação a quem se julga detentor do poder de fala, da fala autorizada e do saber único. Como escola, o que se espera é que seus professores sejam uma comunidade de discurso e a verdade transpareça pela incisão desses discursos uns contra os outros. Não era isto a Ágora, em Atenas? Não é isto que deve ser uma escola, uma Ágora?

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