WATERMELON SUGAR!

A assertiva do gênio de Basileia sempre é trazida à baila quando coisas belas, ainda que efêmeras, surgem e nos catapultam, de uma hora para outra, para o gozo intenso de vida que trazem consigo, ainda que sirvam para alimentar, mais uma vez e sempre, a grande fome de vida que dorme debaixo das pedras que constroem nossas almas, fome esta que é sempre saciada com a produção e venda da expectativa sobre o que viremos a ser, isto é, sobre o que nos acontecerá, sem saber que com essa expectativa, que traz consigo a esperança, acaba por nos fazer aceitando a vida pequeno burguesa. Diz nos Nietzsche – e esta é, depois de uma longa digressão, a assertiva – que a vida sem a música seria um erro. O admirador do ainda hoje impressionante Festival de Bayreuth, dedicado a Wagner (500 mil inscrições para 60 mil vagas), sabia do poder da música para destravar as paixões profundas. No nosso caso, o que temos de profundo é o que temos de superfície (sic): Watermelon Sugar, explosão de entusiasmo nas paradas do mundo todo, tem tudo o que promete: a explosão contida e controlada da dança, a construção da expectativa e do levante contínuo da batida e da energia da música e, ao final, de forma provocadora e escorregadia, enaltece o sexo que banalizamos mas volta a banalizar o mesmo por tudo o que esta música é, um produto de rápido consumo na cultura global, ainda masculina, hétero-normativa e, como tal, centrada naquilo que fortalece o homem: o corpo e o sexo da mulher. Longe de uma posição de fraqueza do feminino este tipo de cultura revela sua fragilidade para com a mulher, que a tudo submete pela promessa de paraíso que carrega entre as pernas. Como bem diz o enigmático e potestade da filosofia alemã, Hegel, é o senhor que é dependente do escravo e não o contrário. O paraíso que se faz a mulher é também a captura do imaginário de quem padece e deseja o que ela é e possui.

Watermelon Sugar é uma música de momento, mas que vai ficar na superfície das boas músicas pela qualidade dos vocais de Harry Styles, muito elogiados pela crítica. Tomados pela boa sonância – como em suas outras músicas, como Adore You, Golden e Sign of The Times – todos nos envolvemos por uma música que parece, à primeira vista, tratar-se de melancia, de uma fruta, e de seu sabor doce, do seu açúcar. Basta ver o clipe da música e veremos o que alguns chamariam de duplicidade. É salutar, penso, não tomar duplicidade quando o sentido duplo é empregado com o objetivo de carregar dobra de sentidos. Se assim é, o resultado se entrega fácil, ou seja, o sentido real não é o literal mas o seu outro. Sentido duplo que merece o nome não se entrega como duplicidade expressa. Precisar dizer que é duplo sentido é confessar que é sentido único e que, ao dizer-se duplo, perde no estilo e na beleza textual; um bom texto, poesia, argumento, quando se quer duplo, não se deixa pegar pela definição mas encarna, encarniçadamente, dois sentidos amalgamados em um só, deixando o leitor com dificuldade na tradução do significado. É isto o que ocorre com Watermelon Sugar, para alguns, ao dizer que a música é de sentido duplo ao falar de melancia mas querer dizer outra coisa. Independente da definição do que seja o duplo sentido, voltemos a mergulhar na música. Watermelon Sugar, descrevendo o doce sabor de melancias vermelhas, sendo mordidas e chupadas, entrega esse significado primeiro para atrair o leitor para algo mais. Esse algo mais, que é de fato a alma da música, é a música da cultura hegemônica do mercado. Que música é Watermelon Sugar? É a música do gozo mais belo de todos, é a música que forma a imagem mais bela, a da mulher com boca semiaberta, olhos fechados e sentindo, como a batida da canção, o prazer crescente de lábios chupando sua boceta. Boceta, sim, e não vagina. Nunca nada bom foi feito com concessão aos moralistas no âmbito da cultura. Como diz Luís Fernando Veríssimo, há palavras que dizem tudo o que querem dizer e seria concessão aos limitados o não uso delas. É como transar e escutar o pedido da mulher para chupar a vagina. Vagina é algo que não existe na hora do sexo mas nos manuais dos biólogos e no vocabulário técnico da medicina. Dito isto, à mulher gozando, à maravilha que é isso, é do que se trata Watermelon Sugar. É uma batida de consumo, afortunada pela despretensão verdadeira de fazer o elogio ao gozar da mulher, que é também o prazer do homem – gozar é sempre a entrega do próprio domínio, de onde os homens adoram, quando calmos e bons de sexo, “reger” o tesão da mulher com o toque e os lábios, sentindo o prazer erótico nesse ato mas se deliciando por saber-se a causa de tanto prazer para a criatura que está na cama, sob seu domínio autorizado e total.

Há outras significações possíveis, como a do uso de drogas, na medida em que há alusão a ficar chapado e o próprio autor confessou que já fez uso delas. Todavia, fico com a significação erótica, expressada pelo próprio cantor e que, independente, é o que se percebe. Embora ninguém seja dono da interpretação, é preferível ficar com aquela que carrega credenciais. Watermelon Sugar, muito elogiada pelos críticos de música mundo afora, acabou parando na Billboard Hot 100, envolvendo os jovens da Europa aos Estados Unidos e da Austrália ao Canadá, expondo a melancolia sem arrependimento de uma cultura contemporânea sem arrependimentos por buscar o prazer. Watermelon é uma receita de mercado bem acabada, que faz um hino à melhor música que existe, o orgasmo feminino. Como música sintoma de nossos tempos, que a tudo engole e descarta, Watermelon Sugar não escapará de seu próprio sucesso, satisfazendo mas realçando a fome por mais, pelo gozo que nunca vem, naufragado sempre em um prazer desbastado.

Um comentário em “WATERMELON SUGAR!

  1. Parabéns, muito bom! Tudo o que é prazer é divino melancolia do gozo, sentir o fogo arder sobre a emoção do cálice.!!!

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