TOP – A ESTERILIZAÇÃO DO SENTIDO!

Em 2013, o produtor musical Carlos Eduardo Miranda escrevia, na seção Ilustrada da Folha de São Paulo, que “A Calypso é a verdade do povo brasileiro. O Chimbinha é um guitarrista genial. Ao mesmo tempo em que são musicalmente interessantes, eles têm uma coisa superbrega, que é a cara do Brasil”. Mais tarde, em 2007, numa palestra em Olinda, Ariano Suassuana arrebatou a plateia ao comentar o texto de Miranda, dizendo que “A Calypso é a verdade do povo brasileiro, que tem Villa-Lobos, Machado de Assis, Aleijadinho? Chimbinha é guitarrista genial. Sou escritor, sei que não se pode gastar adjetivos à toa. Se gasto adjetivo ‘genial’ com Chimbinha, o que vou falar de Beethoven? Eles têm uma coisa superbrega, que é a cara do Brasil. A cara do Brasil não é feia nem é brega, é muito bonita, e é essa que está aqui hoje”. Esse episódio reflete bem o uso das palavras desprendido da correspondência com o real ou, ao menos, um uso indiscriminado de palavras que, pronunciadas sem critério, acabam por exaurir a percepção da realidade.

É compreensível a busca humana por mecanismos, meios e tecnologias que simplifiquem o máximo possível a expressão de suas vontades. Dos deuses aos mágicos, dos alquimistas e místicos de todas as épocas aos coaches e literatura de autoajuda contemporâneos é sempre perceptível a perseguição ao poder total ou à conquista de um suposto segredo que, possuído, eliminará do percurso humano o trabalho, o suor e o enfado e entregará então as delícias e glória do prazer fácil e da vida sem esforço.

Esse desejo não se restringe aos desejos maiores do ser humano; também desce e se mistura às práticas mais comezinhas. A vida ordinária e vulgar de todos nós é farta em exemplos desse tipo. O ato de xingar, por exemplo, entrega o desejo de, com uma palavra, expressar a totalidade de nossa ira. O “foda-se”, tão em moda hoje em dia, ou o “vá tomar no cu” são exemplos do desejo humano de, com uma palavra, fazer acontecer algo de poderoso, para o bem ou para o mal.

Entretanto, esse desejo de simplificação do mundo pelas palavras, em sua estética contemporânea, não está ao serviço de uma facilitação de compreensão do mundo mas de uma aceitação imediata da realidade, sem reflexão, para agilizar o consumo e giro das coisas. Essa simplificação do mundo por vocábulos virais, que surgem a cada momento, pode ser bem definida no uso da palavra TOP para tudo. Antes de prosseguirmos, importa dizer que não condenamos o seu uso ou que o mesmo não possa ser usado. Não se quer aqui perpetuar o preconceito linguístico que enquadra as pessoas segundo as palavras que de suas bocas saem. O que se pretende aqui é fora dessa suspeita, ou pretendemos ser. Há legitimidade para se usar a palavra TOP mas o que aqui se acusa é o seu uso geral para qualificar diferenças; falando de outra maneira, o problema do TOP é seu emprego sem critério que acaba por diluir o sentido daquilo mesmo que quer expressar.

Quando uma única palavra se torna o adjetivo geral usado para qualificar tudo não estamos mais no reino onde a linguagem é usada para nomear mas antes para reificar o real, ou seja, para tomá-lo como coisa em si e não como resultante do trabalho humano. Quando tudo é TOP já nada é e nem pode ser, não havendo mais diferença de conceito, uma vez que para ser e saber é necessário definir o que não é e afirmar algo e negar algo, forma pela qual, na definição da diferença pela identificação do que é e do que não é, produzimos o conhecimento.

Claro que há coisas TOP mas o seu uso, independente de classe social, expõe nossa preguiça de discernir e qualificar com mérito e exatidão as coisas, fugindo do esforço de qualificar a vida e as situações da mesma.

TOP é mais um desses sintomas que revelam a desidratação da vida e o abobalhamento do convívio social, produtor de relações esvaziadas, que as enche com lambidas fáceis do ego, ego alimentado com vocábulos que deveriam dizer muito mas graças à sua generosidade acabam por nada dizer. TOP tem todo direito de estar nas nossas bocas mas seu uso para situações distintas, decisão nossa, nos entrega como incautos e robóticos em um mundo digerido e acrítico que nos ilude dele participar quando o que fazemos na verdade é exercer um arremedo do que poderíamos fazer, seja no discurso com as palavras (nos comunicamos tanto e nada dizemos) seja nos atos cotidianos que tomamos.

TOP não é a primeira e nem a última moda vocabular inexistente de conteúdo por seu uso sem escrutínio. Ela é a expressão de nosso apequenamento, de nossa idiotização comum, que se veste e transveste de várias formas, querendo enganar ao tentar fazer de experiências rotineiras algo extraordinário com a atribuição de vocábulos supostamente suficientes por seu alegado sentido grandioso, como TOP, mas que, de real, se mostram caricatos, vazios e esgotados em sua significação, ao usar coisas como TOP para querer tudo dizer que, ao final, acaba por nada dizer.

%d blogueiros gostam disto: