PROFESSOR PODE VOTAR EM BOLSONARO?

A tríade propriedade, liberdade e vida, entendida pelos liberais como direitos naturais, não históricos e não decorrentes da luta de classes, é a grande fiadora de decisões morais típicas da classe burguesa, em que as conveniências econômicas e o domínio social sobre as outras classes se transformam em discursos e ideologias que, sob a análise histórica e conceitual, nada dizem de conhecimento mas antes informam o desejo de um grupo continuar mandando na estrutura social. Desta forma e sob esta perspectiva, perguntar sobre se professor pode votar em Bolsonaro é coisa absurda, por que estaria supondo a negação da liberdade de qualquer cidadão de votar em quem quiser. É justamente o uso conveniente dessa ideia de liberdade que se produz um contexto ideológico em que os sujeitos são estimulados a tomarem decisões políticas sem confrontarem a coerência delas com a própria ética. Também acontece o contrário, dessa forma enviesada de ler a realidade e clamar por uma ética de aparência para forçar uma decisão política que lhe agrade mas que, eticamente, é incoerente. Estes dois tipos de procedimento se mostram visíveis nas eleições deste ano e nos propomos aqui fazer uma breve reflexão dos mesmos partindo da ética do voto em Bolsonaro a partir da realidade de quem é professor.

De início, podemos dizer que, dentro do que suporta e é até saudável para a democracia, votar em Bolsonaro é algo natural, dentro das regras do jogo. Afinal, é um candidato legitimado, submetido aos poderes constitucionais. Bem, esse tipo de dizer, de falar, não chega a ser incorreto e nunca será desqualificado por que, queiramos ou não, é um dizer verdadeiro. No entanto, esse tipo de narrativa, de nivelamento, é bem ao gosto de quem gosta de ler a realidade em seu ideal e não descer para o mundo real, esquecendo-se de que toda as mudanças, transformações e revoluções ao longo da História foram justamente o abandonar do discurso límpido, perfeito e generalizante para a prática efetiva do seu significado. Os servos do norte da Inglaterra feudal tinham até de cederem a mulher na noite de núpcias e tudo isso era dentro do plano perfeito e agradável de Deus. Nenhuma sociedade, por mais opressora que tenha sido, postulou algo ruim, às claras, para a maioria da sua população; os malefícios sociais eram o efeito das práticas políticas e econômicas que beneficiavam os grupos majoritários, práticas essas pensadas e ditas como sendo necessárias para o bem da sociedade. Assim, voltando à natureza do discurso do voto livre, de que estamos em uma democracia e todos devem respeitar a vontade das pessoas se mostra, mais uma vez, uma pincelada de liberalismo misturada com a liberdade de ser qualquer coisa, inclusive de ter posições que neguem ameaçam a existência dessa própria sociedade. É o típico discurso que pede liberdade de expressão e se diz defensor da democracia para poder falar em partido nazista, defender supremacia branca, inferioridade dos negros, o racismo e o fim do STF e, quando silenciado por força da lei, responde dizendo que estamos vivendo numa ditadura.

É histórico e tradicional que a burguesia sempre prime por discursos, ideologias e narrativas separadas da vida material, imediata das pessoas, evitando que os trabalhadores, em sua grande maioria, desenvolvam consciência de classe e aprendam a fazer uma leitura crítica da sociedade e a se tornarem sujeitos politizados, cônscios de que nada na tessitura social é ingênuo, aleatório e desconectado de um projeto de normalização e enquadramento da vida no qual ele, trabalhador, ocupa, necessariamente, um papel subalterno. O que se percebe hoje no país é exatamente a materialização de um projeto assim e, o que mais assusta ou nos leva ao lamento e tristeza é observar que boa parte da força desse projeto é insuflado pelas próprias vítimas, separadas em sua consciência do que significa Bolsonaro para a realidade prática de suas vidas. Aqui, separo, especialmente, a categoria da qual faço parte, a dos professores e, da perspectiva docente, da ética inerente ao ato de educar e do sentido do educar é que analiso a ética do voto em Bolsonaro sendo professor.

Se, dentre tantos candidatos, nós situamos Bolsonaro e não outro, cabe uma justificativa, que é também a razão desse texto: Bolsonaro é lido por este autor e apontado por ele como alguém que se contrapõe aos valores compartilhados pela sociedade democrática, no mínimo, representando, no mais, dentro da sociedade, os seus piores defeitos, elevados a coisa respeitável na medida em que a autoridade máxima do país os expõe, os encarna e os elogia. Dizer, apenas por que alguém quer dizer, não torna o dito verdade; então, onde repousa a verdade defensável para validar o discurso de que Bolsonaro é a negação dos melhores valores dos quais nos esforçamos cotidianamente e a celebração daquilo que em nós nos adoece, nos atrasa e nos diminui enquanto seres humanos. Em que e por que Bolsonaro não é como os outros? Onde está o problema de votar nele?

Bolsonaro é um admirador da Ditadura Militar de 1964, período triste da nossa história que matou centenas de pessoas, perseguiu milhares e fez descer sobre o país nuvens obscuras, com o custo da democracia e o arrocho econômico sobre a população. Bolsonaro é inegavelmente um sujeito autoritário, que mal disfarça seu gosto pelo militarismo e pelo desejo de mandar sem limites quando confronta sem razão outros poderes constituídos. É um homem que admira um torturador, o Carlos Alberto Brilhante Ustra, justamente por sua atividade de torturar, deixando claro que um mundo em que pudesse torturar os divergentes é um mundo melhor para ele que o mundo onde somos forçados a respeitar a democracia. Como ganhou a presidência sem esperar Bolsonaro tenta esconder o acidente que ele é confrontando o judiciário, as urnas eletrônicas e disparando sandices. Como homem demonstra ser mal resolvido em sua sexualidade e como cidadão deixa claro sua limitação intelectual ao se posicionar sobre todo tipo de pauta que a sociedade muito custou a discutir e fazer avançar os direitos de minorias e uma justiça equânime. Bolsonaro representa o Brasil hétero, preguiçoso, da época colonial, Brasil esse no qual homem podia tudo praticamente com o corpo da mulher e fustigar outros homens se não se mostrassem machos, um Brasil imóvel, no qual não existem índios por que eles não andam mais nus e tem celulares, um Brasil onde não precisa respeitar o meio ambiente por que tem floresta demais, um Brasil ignorante, profundamente ignorante, que desconhece coisas mínimas para entender o funcionamento do mundo.

Bolsonaro, como coisa realizada, demonstrou o mal que é. Negacionista da ciência, negou vacina a milhões no tempo certo. Estúpido – sim, estúpido, como adjetivo de uma verdade e não um xingamento –, persegue a população LGBTQIA+ por entender que ela é um risco para a família e parte de um projeto satânico capitaneado pelo PT; ainda, o mesmo adjetivo explica ele negar que exista racismo no Brasil e colocar na fundação Palmares um negro que é contra políticas de reparação.

O fascismo de Hitler e Mussolini era justamente a afirmação de verdades acreditadas pelo desejo de acreditar, pela vontade de afirmação de um grupo cansado de se ver como fraco que, por sua vez, fez sua fraqueza ser a única virtude de uma nação. As limitações e imaginações de Hitler e Mussolini se tornaram, em sua época, a verdade para a Alemanha e para a Itália. Bolsonaro, que tem a mesma vontade, de fazer com que o país tivesse apenas a sua verdade, a única forma na qual ele não seria desprezado pelo mundo, namora com o fascismo, por que o fascismo é a única saída para os ressentidos, para os covardes que não admitem a felicidade alheia e sofrem até com o que os outros fazem com o ânus.

Muitos, identificados com o mundo que Bolsonaro representa mas envergonhados da posição, compram o discurso da grande mídia de que ele e Lula são farinha do mesmo saco, como se diz no popular, como se ambos fossem versões diferentes do mesmo mal. Nada mais falso, enganoso e capcioso que isso. Esse discurso é plantado, e o foi pela grande mídia que, mesmo crítica ao bolsonarismo, está longe de concordar com os pressupostos de uma política afirmativa dos direitos humanos, das minorias, da justiça racial e do combate à pobreza e à injustiça social, projetos, bem feitos ou não, sempre pautados pela esquerda e com Lula, em governos anteriores, executados com significativo êxito.

Bolsonaro não é um democrata, enquanto Lula é. Bolsonaro é golpista enquanto Lula e o PT, mesmo no golpe claro contra Dilma, respeitou as regras do jogo, sem pender para atos ou atitudes de ruptura institucional. A trajetória de Lula é de defesa da luta dos trabalhadores, de organização sindical contra os desmandos dos patrões, de análise e crítica da política do Brasil, de viajar e conhecer o Brasil profundo.  Bolsonaro tem um outro itinerário, de rebeldia nos quartéis, de insubordinação às autoridades, sendo execrado pelo exército, de participação política apagada, maquinal, viciada, representando o Rio de Janeiro e vivendo da política profissional por anos a fio. Bolsonaro não é símbolo nem projeto de nada muito articulado mas restou como articulação de tudo aquilo que no país não deu certo, se insurge contra a ordem das coisas, é símbolo de um Brasil que subverte o sentido das coisas, que leva o bom senso ao cemitério, que se orgulha da ignorância, que avacalha a vida e o faz sem preocupação, por que não se tem mais que provar nada ou ter que prestar contas do que se disse. Bolsonaro representa esse Brasil tosco mas que, na presidência, é sempre controlado pelo mesmo Brasil elitista, só que menos radical da Direita. Seu projeto é o projeto que nega a alma do Brasil, por que exclui a diversidade étnica do povo brasileiro, desconhece os indígenas, reforça a dor dos negros e perpetua as desigualdades.

Não estamos, com este artigo, fazendo um pedido de voto em Lula mas trata-se, antes de qualquer coisa, de se posicionar contra alguém por imperativo ético, e este alguém é Bolsonaro, ficando o eleitor livre para escolher quem ele queira escolher e que saiba o que significa escolher Bolsonaro. Quanto à escolha deste candidato por parte dos professores, como analisar e entender tal escolha?

Se buscamos racionalidade ou interesse pela verdade como os critérios orientadores das escolhas políticas das pessoas rapidamente descobriremos que a imensa maioria não se submete a estes critérios na hora de fazer uma série de escolhas morais, deixando ver que o que as orienta parte da fé, paixão ou outro tipo de motivação. O que explica alguém que é letrado, em tese um intelectual (sim, por que professor é um intelectual do saber, quer queira quer não), esclarecido, que sabe que a educação é uma aposta ética no poder do conhecimento para aprimorar as gerações no interesse do que é o melhor para a sociedade votar em alguém que não tem compromisso com esse projeto, que se posiciona contra as possibilidades esclarecedoras da educação e que sacrifica a verdade e o conhecimento no altar da ignorância?

O advento do Holocausto e do nazismo e o porquê de sua aceitação foi tema dos estudos da Escola de Frankfurt e o que muito se concluiu foi que paixões ocultas não realizadas do homem médio moviam suas decisões políticas, para além da racionalidade, demonstrando, mais uma vez desde Rousseau e melhor dito pela boca de Pascal, que o coração tem razões que a razão desconhece. O que teria, então, de razão ou paixão, para um professor votar em Bolsonaro, uma vez que a atividade do primeiro choca-se contra o projeto do segundo?

Primeiro, não é contraproducente admitir que o voto em Bolsonaro exige de um professor um esforço para afastar a tese implícita de sua falta de compreensão do processo histórico e da realidade brasileira, como também da luta do trabalho pelo capital. Não é isso um julgamento ou afirmação de que professor que vota em Bolsonaro é desprovido de inteligência ou conhecimento mas é preciso que todo votante, sendo professor, nos faça ver o que não vemos, nos faça compreender que o projeto de Bolsonaro representa mais um avanço em direção aos valores da democracia do que qualquer outro ou que não representa retrocesso inclusive para quem é professor.

Segundo, se não se encontram razões para uma coerência ética no voto a Bolsonaro sendo professor é forçoso admitir que há motivações fora do campo ético e que respondem a apelos mais profundos por parte de cada um. É preciso interpretar que o voto em Bolsonaro, aqui, é a descarga psíquica, o desprendimento de juízo, a fé em alguma coisa representada por ele que justifica o voto e que isto geralmente não está dado no plano da análise crítica, racional.

Pessoas esclarecidas votarem em Bolsonaro deixam ver as limitações do poder do conhecimento e que ele não liberta, necessariamente, como apostavam os filósofos iluministas. Parece que há em nós forças obscuras incapazes de serem afastadas pelo poder da razão, exigindo outro tipo de intervenção. No plano da possibilidade real a psicanálise pode ser de grande ajuda, ao projetar o voto em Bolsonaro nas faltas que cada um tem do pai ou projeta aquilo que recalca e que de alguma forma o bolsonarismo é a chancela para esse tipo de manifestação. Se assim é não encontraremos, por mais que procuremos, as explicações racionais para o voto em Bolsonaro por pessoas que tem uma história de vida e milita por ideias que são contrárias ao mundo representado pelo mandatário. O que, então, faz com que essas pessoas não sintam contradição? Ora, é justamente aí que repousa a importância da consciência ética como imperativo a orientar a ação moral na política, coisa que a burguesia detesta por que é justamente o tipo de ferramenta que impediria a propagação das narrativas fantasiosas e contraditórias dela mesma sobre o mundo. O sujeito trabalhador, nessa situação, lança mão de costuras da realidade típicas da grande mídia e fornecidas pelos intelectuais orgânicos, amarrando lógicas e coerências de forma forçada e flagrantemente estapafúrdias para desqualificar e colocar em dúvida os instrumentos de análise do mundo real, chegando numa situação de acreditação em que ele mesmo não poderá ser convencido do contrário por que já não acredita nos meios para isso mas conserva a credulidade para outras coisas provadamente não verdadeiras. O que é isso senão paixão, senão fé, senão fanatismo, senão o destravar de preconceitos dormentes, senão o incômodo com o mundo “liberal” demais que muitos acham ser culpa da esquerda?

Por último, para defesa da nossa tese do que representa votar em Bolsonaro, advogamos que a liberdade para tal não pode se basear em outra coisa senão na identificação que se tem com ele ou com as ideias que o mesmo representa. No mundo da liberdade liberal em que a coerência ética é dispensada porque levaria as pessoas a perceberem as contradições sociais e se organizar para combatê-las não é surpresa que pessoas vitimadas por políticas bolsonaristas se vejam votando no seu representante sem perceberem nenhum problema ético.

O professor, como intelectual do saber e pelo lugar que ocupa, é livre para fazer valer seu direito de escolha mas anula toda a sua credulidade na medida que, no exercício desse direito, concede voz e autoridade a uma pessoa cujo projeto de poder é a negação do que afirma o ato de educar e o que significa ser professor.

ROMANTISMO – A MORTE DO AMOR!

A imagem de uma vida grandiosa, bela, apaixonante, aventurosa, colorida e sobretudo doce é a que está impregnada na concepção que fazemos do amor, ainda que não guarde em si toda a concepção do amor. O que não se nega, contudo, é que a construção do amor romântico se tornou tão sedutora que mesmo os avisados se melindram por ela, como se rogassem secretamente que o amor que vivem se parecesse com o amor romântico. Há algo no amor romântico que nos apaixona a alma, que nos faz desejá-lo como encaixe perfeito e suficiente com o outro; talvez o apaixonar-se pelo outro e pela imagem ideal que ele pinta de mim sem eu saber – eu amo em ti sempre algo mais que tu – nos cative de uma forma tão egoica que perder a imagem seja também perder o conforto que ela nos dá. O magnífico escritor de Ana Karenina dizia que era difícil amar uma mulher e fazer alguma coisa com juízo. O genial corcunda Pascal produziu uma bela frase ao dizer que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Autores de quilates inquestionáveis no panteão da literatura universal Tolstói e Pascal expressam o sentimento do amor na era moderna pela via que mais nos impregna: a da desrazão, da loucura justificada, da paixão desmedida para tudo fazer pelo outro, da sensação indescritível de só ver sentido na existência ao lado de uma determinada e específica pessoa. O amor do nosso tempo é fruto da concepção romântica; este, por sua vez, é histórico, datado, do século XV em diante. Amor é uma construção histórica e se é verdade que os homens sempre amaram não o fizeram da mesma forma, evidenciando que a forma de fazê-lo é singular. Com tantas emoções aparentemente belas, boas e agradáveis, o que pode haver de ruim no amor romântico?

De início, tudo, ainda que o gosto amargo seja sempre o último a ser sentido. O problema do amor romântico é que ele constrói uma gaiola ideal para o outro morar que quase nunca serve para este outro, amado e desejado. O romantismo do amor para com o outro se constrói sobre projeções nele de nossas próprias carências e faltas, por isso o outro é tão perfeito, porque vemos nele exatamente tudo o que julgamos que deveria ter em nós ou nos julgamos que deveríamos ser. O sorriso perfeito, encantado, o jeito de ser inigualável, a energia muda mas evanescente no ar, o olhar faminto, o balando do andar, enfim, a construção deste outro feita de modo tão perfeito é uma confissão do que se deseja em si mesmo por sua própria falta e que o outro que possui o que desejamos nos mostra isso como um espelho, o que não quer dizer, a rigor, que o outro não seja o que supomos dele.

Aristóteles, que formava com Sócrates e Platão o conhecido tripé da filosofia grega, sem medo de enfrentar o mestre Platão, disse uma vez que era mais amigo da verdade do que de Platão. Há, no amor, ou deve haver, aquilo que fazia Aristóteles advogar como valor maior, a verdade? Se o amor e a verdade, como parecem, são valores admirados no Ocidente, é preciso, para além da beleza do romantismo, procurar a verdade do amor na sua forma verdadeira, no seu devir. Começando pelo próprio romantismo: há verdade no amor que espera e busca o outro de forma romântica? O outro é esta projeção romântica que fazemos dele, de panaceia de todas as nossas carências e o sentido de nossa existência? O que a experiência e a história das relações nos tem mostrado é exatamente o contrário; nada tão belo quanto o amor romântico mas nada tão fugaz também. Seria desejável, ainda assim, amar como os românticos? Sim, se fosse possível. Se nos interessa a verdade no amar o outro a verdade deve buscar a verdade de quem é este outro que amamos e, se for uma verdade honesta, como se espera que seja, deverá perceber que este outro é…um OUTRO. O que é este um outro? Não é um duplo, não é um parecido, não é um semelhante, não é um conhecido, mas um outro, com a devida noção do que esta alteridade significa, o direito radical da experiência de ser a própria singularidade, sem identificação (por que ela anula o outro como outro). Cabe, agora, perguntar se o romantismo, do que supõe dos amantes, enuncia alguma verdade destes. O que encontramos? Por mais bela que seja a imaginação o outro romantizado não passa de uma construção demandada pelo desejo de idealização de quem amamos, o que reflete os furos na nossa própria imagem. O outro e nem nós podemos viver um para o outro como se pudéssemos fazer disso a razão de nossa existência. A existência é material, prática, problemática e sinuosa. O outro não resolve meus problemas práticos, o que me pede energia fora do foco do outro para a vida prática. Por aqui o mito vai se esvaindo. Para amar o outro, antes, é preciso dinheiro, casa, trabalho, produzir a existência laboral sobre a qual o amor será construído. Essa realidade não é agradável, pois parece desbotar o romantismo do amor. É verdade mas, se o que queremos é encontrar um amor que não feneça ao sabor do vento, não é lícito saber discernir o que nos avizinha como inimigos do amor que tanto buscamos? O amor romântico, não raro, supõe uma certa morbidez para tolerá-lo, sobretudo por que não se exclui, da relação heterossexual, o componente de gênero que confere um maior poder ao homem que à mulher e entrega, em sua historicidade, ser uma concepção de amor que acasala melhor o homem que a mulher. Amar romanticamente é também reproduzir uma relação de classe e de gênero que se esconde de forma sutil.

            O amor romântico se faz sobre uma certa idealização do outro e na sua projeção nunca perguntou se o outro é a projeção que se faz dele ou se ele tem a obrigação de corresponder. Amar o outro de forma romântica não realiza a exclusividade de não sentir desejo por mais ninguém, como suposto. A noção de que o outro me completa, não raras vezes, costuma servir ao imperativo de forçar o outro a se enquadrar na minha idealização dele, como se ele tivesse obrigação. Em suma, se queremos amar o outro, o que mostra a experiência é que o primeiro e sábio passo é solapar de nós mesmos a idealização do outro e partir de uma imagem real dele, com a decisão de, longe do amor ser cego, perceber o outro como ele é e, a partir de uma decisão, amá-lo. O amor, longe da sedução do romantismo, é racional, como é racional o seu fim. Há sentido na racionalidade do amor. Se o meu amor é uma decisão livre das projeções e idealizações, quando estas acabarem, como sempre findam, eu não vou, por vinculação, findar o amor, por que sua base não é a estética ou o sentimento meu que espera algo do outro mas minha decisão autônoma de amar a este outro como ele é, sem ignorar a natureza de seu caráter.

PROCRASTINAÇÃO COMO SINTOMA!

Quando os burgueses convenceram e inculcaram na percepção dos servos de que lhes faltava liberdade fazendo os mesmos perceberem a falta desta pelo fato de não poderem saírem do feudo e que isto era um problema, quando não era, obrigatoriamente, não revelaram que estavam tentando comprar o bem mais precioso deles, o tempo. Sob a lógica de mercado todos passaram a se ajoelhar ao novo deus, o tempo, e um tempo produtivo. Não à toa temos uma cultura que endeusa os jovens e maltrata os velhos; os primeiros tem sangue vital necessário à máquina capitalista e os últimos já foram chupados e cuspidos, são lentos para produzir e não potencializam os lucros. Temos todo o tempo do mundo, costuma-se dizer, em mais uma fantasia contemporânea. Esconde-se que não há um tempo fora da produtividade. Gostemos ou não, ricos ou pobres, não há um FORA da existência sob o ritmo de uma vida subjugada ao tempo da produção e do gozo dessa produção. E os ricos, que podem viver em tédio prazeroso? Aí também, e sobretudo, percebe-se a vida entregue ao tempo expropriado dos que trabalham; embora não cronometrem o tempo vivem sob a mais valia de um tempo tirado dos outros pela exploração do trabalho. O tempo é o capital mais valioso que temos por que tudo é e será gozado e feito nele. Desta forma, não há, sob a égide do mercado, uma lógica fora da imposição do tempo mercadológico. Vida autêntica e singular, dona de si, é exceção; viver viajando, esbanjando dinheiro e transando adoidado é mais adequação ao tempo do mercado, mesmo que não se trabalhe, do que autenticidade e evidência de felicidade. Em nossos íntimos suspiros e maquinações está o germe da ação sob a imposição de uma vida produtiva. O mercado é dono do que desejamos. O mercado é o tesão que sentimos pelas coisas, pelas mulheres e homens. O mercado mora na coisa inocente chamada expectativa. A expectativa é a subjetividade alheia capturada pelo imaginário da produção, do ter que ser, do ter que gozar, do ter que corresponder à escrita traçada pelo outro. O anseio de tempo livre coloca em marcha nossos esforços de trabalho dedicado a ganhar dinheiro para comprar tempo, numa legitimação voluntária mas não consciente da lógica de produção de nós mesmos pela agenda capitalista.

Na sociedade que vivemos estamos rodeados de imposições vindas sobretudo do trabalho. A empresarização da vida, que nos esvazia do humano para nos encher de uma subjetividade maquinal, nos transformando em profissionais de alta performance e alto desempenho, nos faz interiorizar a chantagem e abuso emocional do outro de forma institucionalizada, na medida em que a arbitrária régua do outro é aceita por nós por receio de não sermos aceitos no mercado de legitimação da vida. A resultante disso é a interiorização da certeza de que eu tenho que fazer isso e aquilo e, se não conseguir, vou terminar me consumindo com a culpa e com o sofrimento psíquico de me tornar, eu mesmo enquanto sujeito, um sujeito menor, reprovado perante os meus olhos que introjetam contra mim a censura produtiva do outro. A doença prenunciada por essa angústia pode facilmente ser uma depressão, uma forma do sujeito esconder a falha para o outro pedindo dele a compaixão. Na compaixão pelo outro e no padecimento ninguém é metrificado pela régua da produtividade.

A reação de muitos que se atrasam na produtividade cotidiana da vida sem adoecer se desviam da culpa por não serem exatos na matemática da produtividade pedida pelo outro de forma cínica, em um extremo e, em outro, de forma sadia, não se deixando nomear pelo discurso do outro. O discurso do outro, nas instituições, é sempre aquele que pune quem não cumpre prazos e procrastina, recebendo a pecha de irresponsável. Ser responsável, em matéria de produtividade para o outro, é adequar-se mansamente e dócil a uma ordem que não me beneficia e me explora, para evitar maus julgamentos e ainda cortejar elogios alheios à minha performance, se é que a vida é performance; esta preocupação é muito válida no mercado dos egos no trabalho por que costuma valer a ascendência dos sujeitos na ordem da riqueza, uma vez que a produtividade é compensada financeiramente, ou se pensa que seja. Nossos chefes, tão rápidos e prontos em nos censurar por que não agimos como o rebanho, nos cobram o que supõem ser a nossa verdade: somos ou não bons profissionais? Prestamos ou não? Eles, mais do que ninguém, já introjetaram o cabresto da produtividade, condição para serem chefes, e sobre isso constroem o poder de validar a percepção e o valor das pessoas no ambiente em que chefiam, mediante a construção de um discurso de suas práticas. Tal descrição, comum onde quer que cheguemos e tenha trabalho a ser feito, não procura validar moralmente ou não quem cumpre ou deixa de cumprir o que se pede. O fato em questão, para quem cobra e quem é cobrado, é que ambos ignoram que fazem parte de uma imposição maior e que respondem de maneiras diferentes às demandas.

Na vida cotidiana, sem chefes, em nossos lares, em nossas relações e sobretudo conosco mesmo, procrastinamos à vontade e de forma costumeira e, talvez, com uma leve consciência de culpa por não começarmos uma dieta já prometida, uma frequência de atividade física por semana, dentre outras coisas. Aqui, procrastinar não produz efeitos sobre nós vindos do julgamento alheio mas a imposição de ter que fazer e não fazer é a mesma do trabalho.

A própria ideia de procrastinar, a aceitação dela, é uma naturalização de que existem coisas que tem de ser feitas em determinado tempo de nossa vida senão não mais valem, como casar, ter filhos, mudar de emprego, viajar. No aspecto pessoal, procrastinar é aceitar se iludir e se converter ao jugo do tempo do outro, do gozo do outro para o AGORA, para o tempo que não é nosso e que, tratando-se de nossa vida, não deveria ser metrificado pelo gozo do outro. O ter que fazer da minha vida não tem, ou não deveria ter, tempo marcado algum por que, ao final, o tempo não passa devagar ou depressa de acordo com o que fazemos mas se comporta de forma igual para todos. A morte é o destino comum, independente do ritmo de vida. Não procrastinamos por que temos crenças que nos limitam, por isso ou por aquilo outro, como dizem os mercadores de ilusão, os coaching, mas sim por que esta é uma forma de afastar a imposição de algo que, intuímos, não nos realiza, não nos entrega o que queremos e nos engana. Medir a vida e se comportar de acordo com o tempo do mercado é obedecer ao gozo do outro, que se impõem sobre nós e, como o tempo é subjetivo dentro da singularidade de cada um, iremos fatalmente procrastinar, ignorando que estamos nos defendendo das imposições alheias e deixando de ler a procrastinação como sintoma do nosso sofrer por estarmos onde estarmos e agirmos como agirmos. Não ir contra a lei no trabalho e não adoecer com as burocracias é um caminho institucional. No âmbito privado se despir da culpa do não ter feito e das expectativas do outro sobre o que iremos ser ou fazer evita qualquer possibilidade de adoecimento com procrastinação por que, independente dela acontecer ou não, não estaremos nos pautando pela imposição do gozo alheio mas antes nos permitindo gozar do tempo segundo a nossa própria demanda. Não são caminhos fáceis mas no mínimo, se acontece conosco de procrastinar muitas vezes, a solução não seria procurar cursos para evitar a procrastinação mas entendê-la como sintoma de uma lógica de vida que nos adoece, sendo a procrastinação o sintoma em si. Procrastinar é um sintoma claro: o sujeito não dá conta de ser aquilo que o script social postulou para ele e empenha energia e seu próprio futuro ao se negar no presente a viver porque sua agenda está orientada a cumprir as tarefas atrasadas. Longe da trivialidade de fazer ou deixar de fazer alguma tarefa do cotidiano a procrastinação é um sintoma de algo mais profundo que deveria nos levar a um diálogo franco e corajoso dos motivos não conscientes do porquê que procrastinamos.

A TARA DOCENTE POR PALESTRAS PARA ALUNOS!

A ideia de universidade, cunhada pelos medievos, embora com protótipos anteriores como a escola de escribas Eduba, na Suméria, a mais de 3.500 a.C. e a invejável Academia de Platão foi concebida como um lugar onde o conhecimento do todo deveria ser apreendido e transmitido para a posteridade. Os doutores do medievo se arriscavam sobre muitas coisas e assim vai até a tradição moderna. Só para termos uma ideia, o cérebro mais genial da filosofia moderna, Kant, antes de assombrar o mundo com sua Crítica da Razão Pura, que quase enlouquece o editor, escrevia muitíssimo bem sobre geografia sem nunca ter saído de Königsberg, sua cidade natal, e também discorreu sobre pirotecnia e fogos de artifício. O que Kant fazia não era amadorismo mas procurava encarnar o conceito grego e medieval de sábio, aquele que tem conhecimento e sabedoria. O conhecimento seria o ordinário sobre o mundo, necessitando da inteligência e a sabedoria envolvia a ética e a moral sobre o mundo, conhecendo a natureza do mundo e das pessoas. Nesse sentido até a Bíblia debuta em favor da última, ao dizer que a sabedoria é mais válida do que o muito saber e, diz Salomão, de muitos livros se enfada o mundo. Paulo, em toada diferente mas semelhante, diz que o temor ao Senhor é o princípio da sabedoria, algo radical para pensar o sentido do pensamento no contemporâneo, onde o buscar a verdade e o refletir esbarram frontalmente com a busca acabada nas próprias palavras do Jesus, ao dizer que ele era a verdade. Aqui podemos estar à beira da espiritualidade e não nos interessa. Interessa-nos atentar, nesses exemplos, a confluência de entendimentos para algo humano: o desejo de buscar o todo do qual faz parte. É para entender este todo que criamos universidades e, hoje, no âmbito da educação, os professores são o que de mais genérico encontramos que nos fazem lembrar os sábios gregos e a ambição intelectual dos doutores da Idade Média.

O advento da Revolução Francesa e com ela a hegemonia do capitalismo tornou a partição do todo do saber um caminho para o aprimoramento do lucro e da expropriação do trabalho, gerando riqueza e trabalho ao mesmo tempo que colocava o ganho dessa operação a serviço dos seus interesses. A escola e o tempo foram empreendidos dentro de uma lógica inexistente na Idade Média, que era a do trabalho. Trabalhar significava gerar riqueza para o dono dos meios que gerava determinada riqueza. Quanto maior a área específica de trabalho maior a possibilidade de surgir uma necessidade e com ela gerar riqueza, da mesma forma que quanto maior fatorar a existência humana maior a possibilidade de construir subjetividades específicas; é dessa forma que nasce a ideia de adolescência. Apesar disso, permanece, em qualquer centro de formação ou ensino, a ideia de que o adulto educador sob a égide do capital deva saber minimamente sobre generalidades e dominá-las. Conhecer o mundo e a sua natureza continuam sendo, para o próprio capital, algo de interesse do mesmo ao formar os responsáveis pela formação das crianças e dos jovens. Nisto, temos um sintoma que nos aparece.

Tem saltado aos olhos, em corredores, conversas reservadas, reuniões do meet e conselhos de classe, como de rotina, a queixa moral dos professores, que faz parecer que os alunos são o sintoma inconsciente da frustração libidinal (toda nossa frustração, profissional, amorosa, financeira, é uma frustração de gozo) do adulto – suposto – professor. Nessas reuniões o que ressalta de assombro para os professores, invariavelmente, é o espelho do problema que é deles e está com eles, que é a questão da sexualidade, secundado pela má vontade (vontade passiva pode ser má?) dos estudantes em estudar. Estudantes, crianças, falando palavrões, desnudando a sexualidade, expressam o mundo em que vivem. Professor que tem assombro, por si só, acerca do que for em matéria do que é o mundo e o humano, vai contra a expectativa de que, corretamente, se espera que ele tenha sentado em bancos de universidade e conhecido, se não na prática, pelo menos teoricamente o mundo. Assombrar-se e tomar susto com qualquer coisa, dando a ela adjetivos como vergonhoso, monstruoso, doentio ou parecido é revelar sua limitação, de forma gratuita, coisa que não se deve esperar. Embora tenha surjam sempre outros temas espinhosos para além da sexualidade, o que se percebe é um apelo, pelos professores, junto sobretudo aos orientadores e sala de recursos das escolas, como também súplicas ao pedagógico, para providenciar uma palestra com alguém especializado para falar aos estudantes. É claro que o profissional específico tem norral e saber próprios que pode ir além do nosso mas o que se observa é que muitos profissionais palestrantes discorrem sobre coisas que, invariavelmente, estão no mesmo nível de quem solicita a palestra. Ainda assim, o problema não é este. Pedir palestra “especializada” sobre sexualidade…o que é exatamente isso, senão a admissão de que não sabemos falar sobre sexualidade? A admissão de que não sabemos, mesmo que verdadeira e que poderia ser premiada pela busca cuidadosa e responsável, não é suficiente para salvar a mesma. Admitir isso é confessar que somos ineptos para lidar algo que comparece todo dia na escola. Sexualidade é a moeda corrente da escola, da empresa, do trabalho. Admitir isso é confessar que somos problemáticos com o tema. Contudo, não se trata de sexualidade e nem ela é o foco. Ao lado dela, a considerada indisciplina dos alunos é também sempre uma pedida de ajuda de palestrantes. Falar sobre meio ambiente, religião, drogas, xingamentos, palavrões, aprendizagem, estudos, sexualidade, piadas, trabalho, coisas corriqueiras, não podem ser objeto de nossos anseios para serem sanados por palestrantes. São temas que todos ou dominamos ou deveríamos dominar, no nível de saber o lugar deles no mundo. Por que deveríamos dominar? Por que são temas que fazem o chão da escola e não é uma palestra que vai resolver. Se admitimos a inépcia admitimos a falta como educador, gostemos ou não. Por outro lado, o hábito de chamar palestrantes pode expressar muito bem nossa preguiça de viver a escola e a vida na escola, coisa contraproducente vindo de professores. Não nos é pedido que saibamos o todo mas o lugar do professor no contemporâneo não admite profissionais que se escandalizam com o corriqueiro da vida e que supõem haver um problema justificado para interpelar com ajuda profissional especializada. Além de estarmos depondo contra a nossa própria qualidade docente e pessoal – professor, intelectual do saber, se escandalizar é bem sintomático – estamos realçando a acriticidade em relação a quem se julga detentor do poder de fala, da fala autorizada e do saber único. Como escola, o que se espera é que seus professores sejam uma comunidade de discurso e a verdade transpareça pela incisão desses discursos uns contra os outros. Não era isto a Ágora, em Atenas? Não é isto que deve ser uma escola, uma Ágora?

WATERMELON SUGAR!

A assertiva do gênio de Basileia sempre é trazida à baila quando coisas belas, ainda que efêmeras, surgem e nos catapultam, de uma hora para outra, para o gozo intenso de vida que trazem consigo, ainda que sirvam para alimentar, mais uma vez e sempre, a grande fome de vida que dorme debaixo das pedras que constroem nossas almas, fome esta que é sempre saciada com a produção e venda da expectativa sobre o que viremos a ser, isto é, sobre o que nos acontecerá, sem saber que com essa expectativa, que traz consigo a esperança, acaba por nos fazer aceitando a vida pequeno burguesa. Diz nos Nietzsche – e esta é, depois de uma longa digressão, a assertiva – que a vida sem a música seria um erro. O admirador do ainda hoje impressionante Festival de Bayreuth, dedicado a Wagner (500 mil inscrições para 60 mil vagas), sabia do poder da música para destravar as paixões profundas. No nosso caso, o que temos de profundo é o que temos de superfície (sic): Watermelon Sugar, explosão de entusiasmo nas paradas do mundo todo, tem tudo o que promete: a explosão contida e controlada da dança, a construção da expectativa e do levante contínuo da batida e da energia da música e, ao final, de forma provocadora e escorregadia, enaltece o sexo que banalizamos mas volta a banalizar o mesmo por tudo o que esta música é, um produto de rápido consumo na cultura global, ainda masculina, hétero-normativa e, como tal, centrada naquilo que fortalece o homem: o corpo e o sexo da mulher. Longe de uma posição de fraqueza do feminino este tipo de cultura revela sua fragilidade para com a mulher, que a tudo submete pela promessa de paraíso que carrega entre as pernas. Como bem diz o enigmático e potestade da filosofia alemã, Hegel, é o senhor que é dependente do escravo e não o contrário. O paraíso que se faz a mulher é também a captura do imaginário de quem padece e deseja o que ela é e possui.

Watermelon Sugar é uma música de momento, mas que vai ficar na superfície das boas músicas pela qualidade dos vocais de Harry Styles, muito elogiados pela crítica. Tomados pela boa sonância – como em suas outras músicas, como Adore You, Golden e Sign of The Times – todos nos envolvemos por uma música que parece, à primeira vista, tratar-se de melancia, de uma fruta, e de seu sabor doce, do seu açúcar. Basta ver o clipe da música e veremos o que alguns chamariam de duplicidade. É salutar, penso, não tomar duplicidade quando o sentido duplo é empregado com o objetivo de carregar dobra de sentidos. Se assim é, o resultado se entrega fácil, ou seja, o sentido real não é o literal mas o seu outro. Sentido duplo que merece o nome não se entrega como duplicidade expressa. Precisar dizer que é duplo sentido é confessar que é sentido único e que, ao dizer-se duplo, perde no estilo e na beleza textual; um bom texto, poesia, argumento, quando se quer duplo, não se deixa pegar pela definição mas encarna, encarniçadamente, dois sentidos amalgamados em um só, deixando o leitor com dificuldade na tradução do significado. É isto o que ocorre com Watermelon Sugar, para alguns, ao dizer que a música é de sentido duplo ao falar de melancia mas querer dizer outra coisa. Independente da definição do que seja o duplo sentido, voltemos a mergulhar na música. Watermelon Sugar, descrevendo o doce sabor de melancias vermelhas, sendo mordidas e chupadas, entrega esse significado primeiro para atrair o leitor para algo mais. Esse algo mais, que é de fato a alma da música, é a música da cultura hegemônica do mercado. Que música é Watermelon Sugar? É a música do gozo mais belo de todos, é a música que forma a imagem mais bela, a da mulher com boca semiaberta, olhos fechados e sentindo, como a batida da canção, o prazer crescente de lábios chupando sua boceta. Boceta, sim, e não vagina. Nunca nada bom foi feito com concessão aos moralistas no âmbito da cultura. Como diz Luís Fernando Veríssimo, há palavras que dizem tudo o que querem dizer e seria concessão aos limitados o não uso delas. É como transar e escutar o pedido da mulher para chupar a vagina. Vagina é algo que não existe na hora do sexo mas nos manuais dos biólogos e no vocabulário técnico da medicina. Dito isto, à mulher gozando, à maravilha que é isso, é do que se trata Watermelon Sugar. É uma batida de consumo, afortunada pela despretensão verdadeira de fazer o elogio ao gozar da mulher, que é também o prazer do homem – gozar é sempre a entrega do próprio domínio, de onde os homens adoram, quando calmos e bons de sexo, “reger” o tesão da mulher com o toque e os lábios, sentindo o prazer erótico nesse ato mas se deliciando por saber-se a causa de tanto prazer para a criatura que está na cama, sob seu domínio autorizado e total.

Há outras significações possíveis, como a do uso de drogas, na medida em que há alusão a ficar chapado e o próprio autor confessou que já fez uso delas. Todavia, fico com a significação erótica, expressada pelo próprio cantor e que, independente, é o que se percebe. Embora ninguém seja dono da interpretação, é preferível ficar com aquela que carrega credenciais. Watermelon Sugar, muito elogiada pelos críticos de música mundo afora, acabou parando na Billboard Hot 100, envolvendo os jovens da Europa aos Estados Unidos e da Austrália ao Canadá, expondo a melancolia sem arrependimento de uma cultura contemporânea sem arrependimentos por buscar o prazer. Watermelon é uma receita de mercado bem acabada, que faz um hino à melhor música que existe, o orgasmo feminino. Como música sintoma de nossos tempos, que a tudo engole e descarta, Watermelon Sugar não escapará de seu próprio sucesso, satisfazendo mas realçando a fome por mais, pelo gozo que nunca vem, naufragado sempre em um prazer desbastado.

TERAPIAS QUÂNTICAS – A NOVA MORADA DO CHARLATANISMO!

O advento da física quântica foi tão assombroso, assustador, inédito, original e surpreendente (sim, todos esses adjetivos se justificam) que até mesmo a mente mais unânime na época em que ela se consolidava, ninguém menos do que Albert Einstein, se mostrou resistente a aceitá-la. Ela foi tão diferente de tudo o que se observava na física até então que foi confundida como uma espécie de delírio científico por parte de cientistas muito criativos que queriam encontrar respostas para além do autorizado pela física clássica. Richard Feynman, um gênio norte-americano da física teórica, costumava dizer que “Se você acha que entendeu a física quântica, é porque você não a entendeu”. O que tem de mais com a física quântica? TUDO. Tudo que você supõe ser real, ou percebe como realidade, através dos seus olhos e demais órgãos do sentido, não são a mesma coisa na física quântica. A física quântica postula que medir uma coisa altera o estado desta coisa. Procede?

Procede, é ciência, mas a ciência do mundo subatômico, do mundo muito pequeno, onde as noções clássicas de espaço e tempo, onda e partícula se desintegram e passam a ser entendidas de forma muito diferente do que entendemos no mundo “tradicional”. É essa dificuldade de entender a física quântica, mais sua tese de que observar a realidade muda essa realidade (na física quântica, diga-se) que, juntada com a esperteza e má fé dos enganadores de plantão, a perpetuação de uma visão mágica da vida e a ideia de fazer terapia como uma reinauguração de si mesmo, faz da disseminação da palavra “quântico” uma espécie de suposta chancela pseudocientífica dessas ditas terapias. O uso da palavra quântico se aproveita da ignorância das pessoas sobre o que é a ciência física quântica e daí faz um caldeirão de baboseiras, sem base científica nenhuma, sem comprovação, sem dados, sem evidências, enfim, sem nada. Ora, não se quer aqui dizer que só a ciência presta. A filosofia e a psicanálise não são ciências a rigor – mas o são, operando com verificabilidade, lógica e coerência –, mas podem demonstrar a validade de suas proposituras. A fé não é inválida por não ser verificável cientificamente. O que se diz aqui é que toda essa floresta de práticas quânticas, se querem ser levadas a sério como práticas de saúde ou cura precisam convencer comprovando seu discurso ou, se não podem fazê-lo, se realocarem em outro nicho de prática, como o da fé ou crença, ou algo do tipo, e aí não discutiremos os méritos dessa fé ou crença, mesmo podendo acusar suas limitações, porque elas, as terapias quânticas, seriam assumidamente algo espiritual e a experiência de cada um é que diria sobre sua verdade e eficácia ou não. Todavia, não é o caso. As terapias quânticas se querem como discurso e prática de terapia válidos e, se é assim, precisam de uma salvação quântica para se livrarem do que são: embuste, mentiras e circo.

Medicina quântica, terapia quântica, salto quântico, reprogramação celular quântica, cura quântica, coach quântico e uma infinidade de nomes terminados sempre com quântico ou quântica são encontrados em cursos e palestras no YouTube, Instagram, Facebook, dentre outras redes sociais, competindo, talvez, com a onipresença dos anúncios de ”Trago seu amor de volta em sete dias” das ciganas nos postes de luz dos centros urbanos das grandes cidades. A ideia dessa turma é que é possível alterar a realidade e realizar ações utilizando apenas o poder do pensamento. Não confundamos aqui o comando que damos ao pensamento para realizar tal coisa, como andar, tomar banho, escrever, ler e correr, por exemplo, como evidências de que, sim, o pensamento muda a realidade por sua própria força. Os terapeutas quânticos, vamos chamar assim todos aqueles envolvidos nessas falcatruas, trabalham com a ideia de que são capazes de gerar energia ou produzi-la, através de alinhamento energético ou vibracional (alinhar energias com algo e alinhar a nossa energia com outra vibrando na mesma intensidade) e a partir disso produzir curas milagrosas, sem ser preciso a atuação no campo físico. Isso tem cheiro de fantasmagoria, isto é, de uma realidade um tanto não material, como se fosse fantasmática. Fantasmático, aliás, foi o que Einstein disse de certos efeitos da mecânica quântica. Esse aspecto da física quântica se traduz nas terapias e modas quânticas como a crença de que a consciência humana pode alterar diretamente o estado físico das coisas palpáveis, quando não há nenhuma evidência disso. Esses terapeutas se vendem através das máscaras da própria ciência da física quântica, falando de física de partículas, onda, frequência, fótons, a intrigante teoria das cordas e das supercordas de Edward Witten, equações matemáticas, a teoria do Big Bang, citam gênios da ciência como Erwin Schrödinger, o próprio Einstein, a filosofia de Platão e aí colam o esoterismo de coisas como energia metafísica chamada de prana, medicina energética, energia cósmica, dentre tantos outros, vestindo com uma roupagem científica a terapia quântica que levará um nome específico conforme a ocasião e necessidade de propaganda e marketing.

A energia que move nossas células e as alimentam vem dos alimentos que ingerimos e provém de processos bioquímicos do próprio corpo, sem nenhuma relação com energias esotéricas. Há ainda a alegação de que a mente pode curar o corpo através de uma ação de efeito placebo sobre o corpo, sem evidência nenhuma que a afirmação gratuita de que tal coisa é possível. Veja-se que não se rechaça aqui a ideia de que isto seria algo desejável ou agradável mas antes, o que se quer, é que não se cultive, credite e se perpetue ideias falsas, mentirosas, enganosas, por mais belas que sejam. Quem não gostaria de, com a prática da yoga ou meditação, como os terapeutas quânticos falam, ter anulado o efeito do câncer nas células? No entanto, tal coisa é uma irresponsabilidade sem tamanho quando afirmada como possível, verdadeira e combater essas farsas é algo que se soma ao esforço de, sim, avançarmos na compreensão da realidade e alterá-la de verdade e não chafurdar na lama na ilusão de se está no paraíso.

Termos mercado para este tipo de embuste explica o que o historiador Braudel falava de longa duração. Na história a mudança de pensamento das pessoas, as estruturas da sociedade, demoram séculos para mudar e são muito lentas. Não é porque o progresso tecnológico se faz evidente que a forma de pensamento das pessoas também se desenvolveu de forma espetacular. Na Idade Média havia o pensamento mágico, misturado ao religioso, que fazia as pessoas, sem educação e compreensão da realidade, por falta de conhecimento, acreditasse em todo tipo de magia e superstições. Esse pensamento, de alterar a realidade de forma automática, de acordo com o desejo e a vontade, se mantém vivo hoje e parte dele, porque é muito disseminado, está na popularização de coisas como as terapias quânticas.

Quando o magnetismo e a eletricidade surgiram também foram aproveitados pelos charlatães daquela época, e o fizeram valendo-se do desconhecimento do público acerca do que era o magnetismo e a eletricidade. Colchões e chinelos magnéticos, que alinham energias de acordo com as vibrações do universo, existem desde a década de 1980. Compreendido o magnetismo e a eletricidade, o apelo diminuiu mas não desapareceu; ainda existem sapatilhas e colchões que prometem curar de tudo, bastando caminhar e deitar neles – claro, depois de uma grana bem generosa para adquiri-los.

A enganação que se perpetua, em tempos de gente que acredita que a terra não é redonda, não surpreende. A pós-verdade é hoje um modo bonito para dizer que qualquer pessoa pode acreditar no que quiser e que a distinção entre verdade e mentira não interessa mais, ou ninguém precisa mais se sentir na responsabilidade de provar as suas próprias ideias. Basta um questionamento e vemos saltar o pedido de “respeite minha opinião”, confundindo respeito com a tolerância ao absurdo e aceitação da avacalhação intelectual como natural.

As terapias quânticas desvirtuam a dualidade partícula e onda. Dizem, incorretamente, que tudo é composto por ondas, tudo; é a forma como enveredam a receita do embuste: se tudo é composto por ondas – órgãos humanos, estados de espírito, doenças, células humanas, enfim, tudo – então tudo é uma questão de vibração e frequência. Desta forma, basta alinhar as pessoas e seus problemas com a frequência correta e tudo será restaurado; doenças como o câncer desaparecerão, dores de coluna terão fim, ansiedade nunca mais, tudo isso por conta de um alinhamento de células do corpo da pessoa com a vibração energética do universo. Tal coisa é, de longe, uma estupidez circense, uma encenação sem o mínimo pudor. Se usam a mecânica quântica para dizerem que curam as pessoas, e dizem que podem fazê-lo, estão fazendo algo verificável. No entanto, não se tem verificação de cura através dessas falácias e, quando questionados, dizem que o problema é que o paciente não se deixou alinhar de acordo com a vibração energética universal. A desculpa para esconder a falcatrua abre novas falcatruas, em cursos que prometem ensinar na vibração correta para atingir o que se quer. É o charlatão transferindo a culpa para o cliente. Dentro de uma perspectiva neoliberal ainda encontra apelo, pois se reforça que a situação do sujeito é unicamente culpa dele; se a terapia não funcionou é porque não se esforçou o suficiente, enfim, o fracasso e o sucesso são encarados como algo individual. É a saída perfeita para se eximir de toda responsabilidade e ainda embolsar gordos lucros à custa da credulidade alheia.

As terapias quânticas se vestem de ciência, e não de qualquer ciência, mas de uma ciência avançada, de ponta, como o é a mecânica quântica e, depois, se a terapia não funcionar, negam o princípio de causa e efeito de qualquer ciência básica, isolando o problema no paciente. Que ciência é essa que não funciona, se dizem que tudo é energia, vibração e frequência, e depende do paciente? A biologia, a física, a matemática, precisam da adequação das pessoas para serem validadas e se mostrarem verossímeis?

Todas essas práticas chamadas de integrativas e complementares em processos terápicos geralmente tem seu próprio objeto de trabalho, como a homeopatia ou acupuntura, reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina, mas insistem, muitas delas, em associar o termo quântico à sua denominação, resultando em homeopatia quântica, acupuntura quântica e similares. Estas últimas não possuem comprovação científica nenhuma. O professor David Gorski, renomado pesquisador combatente dessas práticas duvidosas, tem no artigo https://sciencebasedmedicine.org/can-mind-body-practices-change-the-way-our-genes-react-to-stress/ um debate sobre a separação entre mente e corpo e reprogramação celular através de supostas terapias quânticas que desmontam esse embuste de forma cabal.

É preciso ter em mente que não se tem um embate gratuito com essas práticas que se utilizam do termo quântico. Se uma coisa se pretende ciência não há porque fugir dos métodos de comprovação científicos, como se dizem as terapias quânticas. Se agem de forma contrária só fazem confirmar que toda essa gama de nomes com práticas quânticas não passa de um grande charlatanismo, cheio de má fé e iludindo as pessoas de forma proposital. Há também, contudo, gente de boa fé acreditando nessas teorias e as consumindo. Nesse último caso verifica-se a máscara do próprio sujeito, senão um sintoma dele mesmo, em querer acreditar em tal coisa para lhe evitar encarar a verdade e os problemas reais de frente, sem fugir, mas acreditando e torcendo para que essas teorias se provem certas pois, desta forma, resolveriam os problemas de seu mundo de forma mágica, com um simples alinhamento de células, ou uma simples vibração energética.

As terapias quânticas provam a perpetuidade do pensamento mágico em diferentes matizes na sociedade humana. Acreditar que o mundo pode ser e deixar de ser o que eu quiser com algo inexistente, absurdo por si mesmo, falso, como alinhamento celular, ou reprogramação de células, ou vibração energética, é a mostra de que a racionalidade e a ciência humanas, tão criticadas por suas limitações para compreender o universo, é ainda uma conquista limitada, precisando, de tempos em tempos, como a democracia, de constante defesa e vigilância para não ser superada pelo misticismo e obscurantismo.

TOP – A ESTERILIZAÇÃO DO SENTIDO!

Em 2013, o produtor musical Carlos Eduardo Miranda escrevia, na seção Ilustrada da Folha de São Paulo, que “A Calypso é a verdade do povo brasileiro. O Chimbinha é um guitarrista genial. Ao mesmo tempo em que são musicalmente interessantes, eles têm uma coisa superbrega, que é a cara do Brasil”. Mais tarde, em 2007, numa palestra em Olinda, Ariano Suassuna arrebatou a plateia ao comentar o texto de Miranda, dizendo que “A Calypso é a verdade do povo brasileiro, que tem Villa-Lobos, Machado de Assis, Aleijadinho? Chimbinha é guitarrista genial. Sou escritor, sei que não se pode gastar adjetivos à toa. Se gasto adjetivo ‘genial’ com Chimbinha, o que vou falar de Beethoven? Eles têm uma coisa superbrega, que é a cara do Brasil. A cara do Brasil não é feia nem é brega, é muito bonita, e é essa que está aqui hoje”. Esse episódio reflete bem o uso das palavras desprendido da correspondência com o real ou, ao menos, um uso indiscriminado de palavras que, pronunciadas sem critério, acabam por exaurir a percepção da realidade.

É compreensível a busca humana por mecanismos, meios e tecnologias que simplifiquem o máximo possível a expressão de suas vontades. Dos deuses aos mágicos, dos alquimistas e místicos de todas as épocas aos coaches e literatura de autoajuda contemporâneos é sempre perceptível a perseguição ao poder total ou à conquista de um suposto segredo que, possuído, eliminará do percurso humano o trabalho, o suor e o enfado e entregará então as delícias e glória do prazer fácil e da vida sem esforço.

Esse desejo não se restringe aos desejos maiores do ser humano; também desce e se mistura às práticas mais comezinhas. A vida ordinária e vulgar de todos nós é farta em exemplos desse tipo. O ato de xingar, por exemplo, entrega o desejo de, com uma palavra, expressar a totalidade de nossa ira. O “foda-se”, tão em moda hoje em dia, ou o “vá tomar no cu” são exemplos do desejo humano de, com uma palavra, fazer acontecer algo de poderoso, para o bem ou para o mal.

Entretanto, esse desejo de simplificação do mundo pelas palavras, em sua estética contemporânea, não está ao serviço de uma facilitação de compreensão do mundo mas de uma aceitação imediata da realidade, sem reflexão, para agilizar o consumo e giro das coisas. Essa simplificação do mundo por vocábulos virais, que surgem a cada momento, pode ser bem definida no uso da palavra TOP para tudo. Antes de prosseguirmos, importa dizer que não condenamos o seu uso ou que o mesmo não possa ser usado. Não se quer aqui perpetuar o preconceito linguístico que enquadra as pessoas segundo as palavras que de suas bocas saem. O que se pretende aqui é fora dessa suspeita, ou pretendemos ser. Há legitimidade para se usar a palavra TOP mas o que aqui se acusa é o seu uso geral para qualificar diferenças; falando de outra maneira, o problema do TOP é seu emprego sem critério que acaba por diluir o sentido daquilo mesmo que quer expressar.

Quando uma única palavra se torna o adjetivo geral usado para qualificar tudo não estamos mais no reino onde a linguagem é usada para nomear mas antes para reificar o real, ou seja, para tomá-lo como coisa em si e não como resultante do trabalho humano. Quando tudo é TOP já nada é e nem pode ser, não havendo mais diferença de conceito, uma vez que para ser e saber é necessário definir o que não é e afirmar algo e negar algo, forma pela qual, na definição da diferença pela identificação do que é e do que não é, produzimos o conhecimento.

Claro que há coisas TOP mas o seu uso, independente de classe social, expõe nossa preguiça de discernir e qualificar com mérito e exatidão as coisas, fugindo do esforço de qualificar a vida e as situações da mesma.

TOP é mais um desses sintomas que revelam a desidratação da vida e o abobalhamento do convívio social, produtor de relações esvaziadas, que as enche com lambidas fáceis do ego, ego alimentado com vocábulos que deveriam dizer muito mas graças à sua generosidade acabam por nada dizer. TOP tem todo direito de estar nas nossas bocas mas seu uso para situações distintas, decisão nossa, nos entrega como incautos e robóticos em um mundo digerido e acrítico que nos ilude dele participar quando o que fazemos na verdade é exercer um arremedo do que poderíamos fazer, seja no discurso com as palavras (nos comunicamos tanto e nada dizemos) seja nos atos cotidianos que tomamos.

TOP não é a primeira e nem a última moda vocabular inexistente de conteúdo por seu uso sem escrutínio. Ela é a expressão de nosso apequenamento, de nossa idiotização comum, que se veste e transveste de várias formas, querendo enganar ao tentar fazer de experiências rotineiras algo extraordinário com a atribuição de vocábulos supostamente suficientes por seu alegado sentido grandioso, como TOP, mas que, de real, se mostram caricatos, vazios e esgotados em sua significação, ao usar coisas como TOP para querer tudo dizer que, ao final, acaba por nada dizer.